quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

BREVES REFLEXÕES SOBRE A VIOLÊNCIA URBANA

Cid José Passos Bastos
Professor Associado
Universidade Federal da Bahia
Instituto de Biologia

                A violência (ou violação dos direitos básicos do cidadão) nos aglomerados urbanos está atingindo níveis alarmantes e suas causas são bastante complexas. Como tratar (não enfrentar ou confrontar, como se tem dito e feito) essa enfermidade social? A opção sempre foi combater, ou seja, utilizar a própria violência para se controlar a violência. Esse modelo, evidentemente, nunca se mostrou eficiente. As prisões e penitenciárias são locais degradantes, tanto pelas condições de espaço físico inadequado quanto pelo ócio destrutivo (e não criativo). Retirar pessoas do convívio social e jogá-las em cubículos sujos evidentemente não resolverá o problema, apenas torna-o pior.
A violência tem a sua gênese em aspectos muito mais psicológicos do que puramente sociais. O primeiro equívoco cometido é tratar aquele que comete atos violentos, que desafiam as leis sociais vigentes, como “marginal”, “bandido”, “facínora” ou outro adjetivo pejorativo qualquer; acontece que são pessoas comuns, que convivem socialmente. Muitos, sim, são vítimas de um modelo de desenvolvimento social e econômico equivocado, que privilegia o lucro, o luxo e abomina o trabalho; vivem em condições de moradia, de educação e saúde indignas. Contudo, tem que se avaliar e considerar que nem todo cidadão que é vítima desse modelo opta pela violência, pela prática de atos criminosos. Portanto, a verdadeira gênese desse problema não pode ser explicada apenas por problemas socioeconômicos. Por que pessoas que frequentaram boas escolas, tiveram oportunidade de trabalho, habitam locais com condições de moradia dignas e têm acesso à saúde cometem violência e crimes, tais como roubos e latrocínios? Quais as causas reais da corrupção (desvio de recursos financeiros públicos, recebimentos de propinas em troca de favorecimentos) praticada pelos políticos e governantes? Por que pessoas ligadas à segurança pública, tais como policiais e pessoas que exercem outros cargos públicos nessa área cometem crimes e outras formas de violência? Existem, portanto, causas muito mais complexas, de ordem psicológica, mas que nunca são consideradas.
Talvez, a causa principal e que condiciona a ocorrência de todas as outras seja o egoísmo, traduzido nesse caso como a busca individual pelo maior poder econômico (dito socialmente, maior riqueza), maior lucratividade e maior luxo (ou seja, condições que extrapolam o simples conforto social, de moradia e de convivência). E qual a gênese do egoísmo? O egoísmo tem suas raízes nos primórdios da evolução humana, quando a luta pela sobrevivência, melhor explicitando, a busca pelo alimento requeria atitudes de disputa com outros animais que se alimentavam do mesmo tipo de recurso. Contudo, o desenvolvimento da organização social, a eussocialização, no dizer de E. Wilson (Wilson 2013) deveria ter suprimido essa atitude, com a substituição do egoísmo pelo altruísmo. Contudo, não foi isso que aconteceu. O egoísmo ainda prevalece em muitas atitudes humanas e é a causa de muitos males sociais, inclusive da violência. Como tratá-lo? (Não combatê-lo, pois nada adianta, uma vez que egoísmo só gera mais egoísmo, como a violência só gera mais violência). Esse é um grande desafio para a psicossociologia. Evidentemente não estou isentando o modelo de desenvolvimento social praticado, esse tem a sua contribuição, contudo, nem todas as suas vítimas optam pela prática de atos violentos, criminosos. Afinal, o que dizer dos crimes praticados por grandes empresários e políticos, pessoas que não são vítimas desse modelo, mas que o perpetuam?
Infelizmente, enquanto a violência for considerada apenas como um fato socioeconômico, desconsiderando os seus aspectos psicossociais, esse problema irá persistir. Da mesma forma, enquanto for apenas combatida e não tratada, a violência continuará afrontando a convivência social.
Salvador, 8 de fevereiro de 2018
Literatura citada
Wilson, E.O. 2013. A conquista social da Terra. Tradução Ivo Korytovski. 1ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras.

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