terça-feira, 11 de outubro de 2016

SÉRIE TEXTOS DIDÁTICOS



BREVE ENSAIO SOBRE A EVOLUÇÃO DO PROCESSO REPRODUTIVO.
PARTE II: DO ESPORO À SEMENTE

Prof. Dr. Cid José Passos Bastos
Universidade Federal da Bahia
Instituto de Biologia
Laboratório de Taxonomia de Briófitas – BrioFLORA


No início era apenas o esporo, depois a semente... Tudo começou com plantas polisporangiadas, relativamente simples, que produziam apenas um tipo de esporos (homosporadas), por meiose. A alternância de gerações já era um processo bem estabelecido no ambiente terrestre.
A alternância de gerações nas plantas terrestres surgiu quando o zigoto não foi liberado no meio ambiente e não sofreu meiose, mas mitoses, produzindo um embrião diploide, o qual começou a ser nutrido pela geração parental (gametófito), processo esse denominado matrotrofia (ver texto anterior, Parte I: Da Duplicação Molecular à União Gamética, para um melhor entendimento), surgindo, assim, o esporófito (Kato & Akiyama 2005; Ligrone et al. 2102). O esporófito é uma novidade evolutiva para as plantas terrestres; essa geração diploide já tinha surgido várias vezes nos organismos clorofilados aquáticos e nos fungos. O desenvolvimento evolutivo do esporófito posterior ao seu surgimento diferiu nos dois diferentes grupos de embriófitas (Embriófita: grupo de plantas terrestres circunscritas com base na presença do embrião): briófitas (monosporangiadas) e traqueófitas (polisporangiadas)[1]
Nas briófitas, o esporófito tem um período de vida curto e é apenas responsável pela formação dos meiósporos, não desenvolvendo nenhuma função vegetativa, possuindo apenas um único esporângio e não desenvolve qualquer tipo de ramo ou apêndice. Já nas traqueófitas, o esporófito alcançou alto nível de desenvolvimento e complexidade, sendo responsável, também, pela função vegetativa, que é mais longa, só posteriormente produzindo os múltiplos esporângios em folhas especializadas. Essa fase vegetativa, interpolada entre a reprodutiva, é uma inovação evolutiva das plantas vasculares (Kato & Akiyama 2005). Para que fosse possível ao esporófito desempenhar as funções de crescimento, nutrição e dispersão (por meio de diásporos), algumas características foram desenvolvidas, culminando em uma estrutura especializada e complexa, formada por um órgão de fixação e absorção (raiz), um órgão axial de condução e sustentação (caule) e por órgãos assimiladores (folhas). Assim, o esporófito nas traqueófitas é ramificado, portando folhas e multiesporangiado (para maiores detalhes ver os artigos de Kato & Akiyama 2005; Gerrienne & Gonex 2011).
Podemos dividir as plantas terrestres (Embriófitas) em dois grandes grupos: aquelas que ainda produzem meiósporos como meio de dispersão, representadas pelas briófitas, licófitas e monilófitas (samambaias), e aquelas que produzem semente, representada pelas gimnospermas e angiospermas. Para o surgimento da semente, uma novidade evolutiva, modificações profundas ocorreram nos processos reprodutivos das plantas terrestres.
As briófitas, no entanto, não estão envolvidas nesse processo, desde que seus esporófitos não portam folhas e nem ramos, apenas um esporângio sustentado por um pedúnculo (nos Filos Bryophyta e Marchantiophyta) ou apenas um esporângio (no Filo Anthocerotophyta), ligado diretamente ao pé (estrutura de ligação entre o esporófito e o gametófito). Mas, a partir das licófitas, é possível traçar uma série de modificações, tanto nas estruturas quanto no próprio processo reprodutivo. Comecemos, assim, por esse grupo de plantas.
As licófitas, quanto ao ciclo reprodutivo, podem ser dividas em dois grupos: as homosporadas e as heterosporadas. As homosporadas produzem um só tipo de esporo, ou seja, esporos do mesmo tamanho que originam gametófitos monoicos. Esses esporos são liberados no ambiente e germinam produzindo o gametófito, o qual é pequeno e efêmero. Este, então, produz os gametângios, ou seja, o anterídio (gametângio masculino) e o arquegônio (gametângio feminino). O gameta masculino, ainda móvel, denominado anterozóide, necessita, assim de meio líquido (água) para que possa alcançar e penetrar o arquegônio e fecundar a oosfera, geralmente única. O zigoto assim originado, ainda no gametófito, pois não é liberado, divide-se mitoticamente e forma o embrião, o qual é nutrido pelo gametófito, desenvolvendo-se em esporófito. Este cresce e torna-se nutricionalmente independente, ramifica-se, atingindo alto grau de diferenciação tissular. Após relativamente longa fase vegetativa, esporângios são produzidos nas folhas, agora denominadas esporofilos. Os esporângios, em geral, são envoltos por uma camada de tecido, denominada indúsio. Nos esporângios, portanto, são formados os meiósporos (esporos produzidos por meiose), os quais são liberados e germinam originando novos gametófitos.
Nas homosporadas, portanto, ainda não se percebe qualquer relação entre o seu processo reprodutivo e a origem da semente. Mas, nas heterosporadas, entretanto, poderemos começar a traçar essa trajetória.
As licófitas heterosporadas[2] produzem dois tipos de esporos: um menor, denominado micrósporo ou andrósporo, que origina o gametófito masculino; outro maior, denominado megásporo ou ginósporo, que origina o gametófito feminino. Como exemplos de licófitas heterosporadas têm-se os gêneros Selaginella e Isoetes.
Comecemos o ciclo de uma licófita heterosporada com a formação dos esporângios, os quais se formam em folhas modificadas, denominadas esporofilos, reunidas em um ramo denominado estróbilo. Nos esporofilos formam-se os microsporângios, que irão produzir, por meiose, os micrósporos, e os megasporângios, que produzirão, por meiose, os megásporos. Mas, nem todas as folhas produzem esporângios; aquelas que só têm função assimiladora são denominadas trofofilos.
No micrósporo forma-se, por divisões mitóticas, o microgametófito, no qual é formado o anterídio que produzem os anterozóides, gametas masculinos flagelados, que são liberados por rompimento da parede do micrósporo. O microgametófito, assim, permanece envolto pela parede do micrósporo. No megásporo ocorre a formação do megagametófito, onde é formado o arquegônio, gametângio feminino que produz a oosfera, gameta feminino imóvel, maior do que o masculino. O megagametófito fica parcialmente envolto pela parede do megásporo. Ressalte-se que ambos, o micrósporo e megásporo são liberados da planta-mãe, ocorrendo o processo de fecundação no ambiente (Rawitscher 1967; Oliveira 1996).
Os anterozóides têm que se deslocar em meio líquido até atingir o arquegônio no megagametófito e fecundar a oosfera no seu interior. O esporófito, nos seus primeiros estádios de desenvolvimento, é parcialmente dependente do gametófito feminino, mas essa dependência é por um período muito curto. Logo se desenvolve, tornando-se independente.
Até esse ponto, ainda se observa a dependência de água para que ocorra o processo de fecundação. Mas, nas gimnospermas, foi dado o primeiro passo para independência da água para que ocorra o processo de reprodução sexuada. Nesse grupo de plantas, ocorrem modificações consideráveis nas estruturas de reprodução, como também no próprio processo reprodutivo.
A principal modificação que culminaria com o aparecimento da semente foi a germinação do megásporo ainda no megasporângio, portanto, na planta-mãe. Assim, o megagametófito se torna dependente do esporófito. Esse estádio foi atingido já no final do Devoniano, em plantas, hoje extintas, denominadas e Pteridospermas. Na época atual, esse processo ocorre nas gimnospermas e angiospermas.
As estruturas reprodutoras nas gimnospermas, masculinas e femininas, são formadas por uma série de esporofilos arranjados espiraladamente, denominadas estróbilos. Diferentemente das angiospermas, nas gimnospermas não se formam os verticilos protetores e, assim, não se costuma denominar de flor a essas estruturas (os estróbilos).
Não serão aqui detalhados os ciclos reprodutivos das gimnospermas e das angiospermas, mas apenas os passos que levaram à formação da semente. Gimnospermas e angiospermas, por suas peculiares estruturas e métodos de reprodução sexuada, são denominadas, em conjunto, de fanerógamas, ou seja, que formam flores, para diferençar das Criptógamas, plantas que não formam flores. Nas fanerógamas, o microgametófito está representado pelo tubo polínico, e o megagametófito pelo saco embrionário.
Nas gimnospermas, o micrósporo, agora denominado de grão de pólen, é transportado pelo vento até os megasporângios, onde germina formando o tubo polínico (microgametófito). No grupo das Cicadófitas e Ginkgófitas, no tubo polínico ainda são diferenciados um anterídio com dois anterozóides pluriflagelados. Nesses grupos, o megasporângio secreta um líquido em uma cavidade, denominada câmara polínica. O megásporo, formado no megasporângio, germina formando o megagametófito (saco embrionário) com alguns arquegônios. Os anterozóides, liberados do tubo polínico, deslocam-se nesse líquido até penetrarem o megagametófito e os arquegônios, fecundando a oosfera. Ocorrendo a fecundação, forma-se o embrião. Nos demais grupos de Gimnospermas, Coníferas e Gnetíneas, no tubo polínico já não se formam anterozóides, mas sim núcleos gaméticos; assim, o tubo polínico cresce e penetra o megagametófito, colocando os núcleos gaméticos masculinos diretamente em contato com os arquegônios (Rawitscher 1967; Oliveira 1996).
Nas angiospermas, a redução do megagametófito é mais acentuada. Este está representado por apenas um conjunto de células, e não mais encontramos arquegônios. As células que compõem o megagametófito ou saco embrionário das angiospermas são derivadas da germinação do megásporo: na parte apical do megásporo ficam três núcleos, que em geral estão envoltos por membranas, formando-se três células, uma delas será a oosfera e as outras duas, as sinérgides; as três células do lado oposto, sem função determinada, denominam-se antípodas. Na parte central, existem dois núcleos, que são os núcleos polares, os quais serão fecundados por um dos núcleos gaméticos do tubo polínico (Rawitscher 1967; Oliveira 1996).
Nesse ponto, é necessário chamar a atenção para algumas modificações estruturais que ocorreram, e com mais evidência no megasporângio. Os grãos polínicos, na verdade, representam não apenas os micrósporos, mas já carrega no seu interior o microgametófito em desenvolvimento. O megasporângio, nas gimnospermas e angiospermas, é denominado óvulo ou, mais propriamente, rudimento seminal. Este é formado por um ou dois tegumentos e uma abertura, denominada micrópila, por onde penetra o tubo polínico, e pelo nucelo, o qual é propriamente, o megasporângio. O núcleo da célula mãe do megásporo sofre meiose, formando uma tétrade de núcleos, dos quais três degeneram, restando apenas um, o qual é, propriamente, o megásporo. Esse núcleo restante sofre divisões mitóticas sucessivas, formando, nas gimnospermas, os arquegônios e várias células vegetativas, constituindo o megagametófito; nas angiospermas, não se formam arquegônios, mas apenas os núcleos que compõem o saco embrionário ou megagametófito, variando de oito a mais núcleos (Rawitscher 1967; Oliveira 1996).
A semente, assim, seria o resultado do desenvolvimento dessa estrutura após ter ocorrido o processo de fecundação. Os tegumentos que envolvem o megasporângio formam os tegumentos da semente (testa e tegmen). A semente leva no seu interior o embrião. Assim, o que é liberado pela planta-mãe, não é o megásporo, como nas licófitas e monilófitas heterosporadas, mas sim a semente.
Modificações também ocorreram nos esporofilos, de forma mais acentuada nas angiospermas. Nesse grupo de plantas, essas estruturas não mais são reconhecidas com tais, em razão de profundas alterações que sofreram. Os esporofilos das angiospermas, em geral, estão protegidos por um grupo de estruturas foliares modificadas, as quais constituem os verticilos protetores: a corola, formada por pétalas, e o cálice, formado por sépalas, constituindo, assim, a flor típica de uma angiosperma. Nas gimnospermas, essas estruturas estão ausentes.
Nas angiospermas, os esporofilos que portam os microsporângios constituem os estames, no seu conjunto denominado androceu; o filete é o esporofilo propriamente dito, e as anteras são os microsporângios. Os esporofilos que portam os megasporângios são denominados de carpelos; por dobramento ou enrolamento do carpelo (ou esporofilo) e posterior soldadura de suas margens, forma-se o ovário, no qual estão inseridos os megasporângios; o ovário prolonga-se em uma estrutura alongada (estilete), no ápice da qual forma-se uma região receptora do grão de pólen (estigma); juntos, ovário e estigma constituem o gineceu. Os megasporângios também sofreram alguma modificação, pois estão envoltos por tegumentos com uma abertura; denomina-se óvulo ou rudimento seminal, ao conjunto dos tegumentos e megasporângio (o nucelo) por eles envolvidos. O desenvolvimento do óvulo, após a fecundação, é que forma a semente. O fruto, estrutura que só aparece nas angiospermas, é o resultado do desenvolvimento do carpelo ou carpelos (os esporofilos) (Rawitscher 1967; Oliveira 1996).
Podemos resumir o processo da origem da semente nos eventos delineados a seguir:
A – Surgimento da heterosporia.
B - Permanência e germinação do megásporo na planta-mãe, no caso, o esporófito.
C - processo de união gamética ocorrendo no megagametófito feminino, formado pela germinação do megásporo, ainda na planta-mãe.
D - Desenvolvimento, após a fecundação, do megasporângio e dos tegumentos que o envolvem (rudimento seminal ou óvulo), formando a semente, que carrega o embrião e os tecidos que o irão nutrir (endosperma).
O embrião, encerrado no interior da semente, fica em estado dormente aguardando as condições propícias ao seu desenvolvimento, protegido, assim, das condições ambientais adversas. A semente, assim, representa um grande avanço evolutivo das plantas terrestres.  Além de propiciar proteção à planta em desenvolvimento (embrião), ainda permite a sua disseminação, por vários meios, abióticos e bióticos, ampliando a sua área de distribuição, desde que podem ser levadas a consideráveis distâncias do local onde se encontra a planta-mãe.
Podemos observar, após esse estudo, que nas plantas terrestres, a partir das licófitas, ocorreu sensível redução da fase gametofítica e grande desenvolvimento da fase esporofítica. A partir das gimnospermas, essa redução se tornou muito mais acentuada, com o gametófito feminino sendo formado no próprio esporângio, uma vez que não houve liberação do megásporo, culminando com a formação e liberação da semente, e não mais do megásporo, como ocorria nas licófitas e monilófitas heterosporadas.
Assim, verificamos que ocorreu uma marcada alteração no ciclo haplodiplôntico nas fanerógamas, em que e a geração gametofítica sofreu sensível redução, tornando-se inteiramente dependente da geração esporofítica, a qual se tornou dominante e morfologicamente diversificada. Qiu et al. (2012) faz uma ótima análise da evolução do ciclo de vida nas plantas terrestres (embriófitas).

Literatura consultada

GERRIENNE, P. & GONEZ, P. 2011. Early evolution of life cycles in embryophytes: A focus on the fossil evidence of gametophyte/sporophyte size and morphological complexity. Journal of Systematics and Evolution 49(1): 1-16.
KATO, M. & AKIYAMA, H. 2005. Interpolation hypothesis for origin of the vegetative sporophyte of land plants. Taxon 54(2): 443-450.
LIGRONE, R., DUCKETT, J.G. & RENZAGLIA, K.S. 2012. Major transitions in the evolution of early land plants: a bryological perspective. Annals of Botany 109: 851-871.
OLIVEIRA, E.C. 1996. Introdução à Biologia Vegetal. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.
RAWITSCHER, F. 1967. Elementos Básicos de Botânica: introdução ao estudo da Botânica. 5º Edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional.
QIU, Y.-L., TAYLOR, A.B. & MCMANUS, H.A. 2012. Evolution of the life cycle in land plants. Journal of Systematics and Evolution 50(3): 171-194.


[1] Para efeito de simplificação, não serão considerados os grupos taxonômicos.
[2] Monilófitas heterosporadas são poucas (Salviniales) e não serão tratadas aqui. O ciclo de vida das monilófitas homosporadas é funcionalmente idêntico ao das licófitas homosporadas.
SÉRIE TEXTOS DIDÁTICOS: ANO 2016



EVOLUÇÃO DO MEIOSPORÂNGIO NAS EMBRIÓFITAS (PLANTAS TERRESTRES)

Prof. Dr. Cid José Passos Bastos
Universidade Federal da Bahia
Instituto de Biologia
Laboratório de Taxonomia de Briófitas – BrioFLORA
I - CONSIDERAÇÕES GERAIS

                Meiosporângio é um tipo de esporângio (estrutura produtora de esporos) que produz esporos através de divisão meiótica, diferentemente do mitosporângio, que forma os esporos por mitose. O meiosporângio aparece tanto no ciclo haplôntico, nesse caso representado pelo zigoto, quanto no ciclo haplodiplôntico (alternância de fases nucleares ou de gerações), sendo formado no esporófito. Como já pode ser percebido, o meiosporângio só se forma após a ocorrência de fusão gamética (fecundação) ou por fusão de células vegetativas (somatogamia, de ocorrência apenas nos fungos basidiomicetos). Já o mitosporângio está relacionado a processos de multiplicação vegetativa (reprodução assexuada).
                Nas algas, especialmente nas clorofíceas e carofíceas que apresentam o ciclo haplôntico, o meiosporângio está representado pelo zigoto, o qual sofre meiose produzindo meiozoósporos, que irão formar os novos gametófitos (fase haploide produtora de gametas). Nas algas que apresentam o ciclo haplodiplôntico, o meiosporângio é uma estrutura formada no esporófito (fase diploide produtora de esporos). A forma e localização do meiosporângio, assim como o tipo de meiósporo formado (se meiozoósporos ou aplanósporos) variam conforme o grupo de algas.
                As Embriófitas (plantas terrestres) apresentam ciclo haplodiplôntico heteromorfo, cuja fase dominante pode ser o gametófito, como encontrado em todas as linhagens das briófitas, ou o esporófito, como nas traqueófitas (plantas vasculares). Nessas plantas, o meiosporângio sofreu profundas modificações ao longo do tempo evolutivo, culminando, nas plantas atuais, no ramo floral encontrado nas angiospermas.

II – O MEIOSPORÂNGIO DAS PRIMEIRAS PLANTAS TERRESTRES

                A colonização do ambiente terrestre (terrestrialização) pelas plantas foi um dos principais eventos evolutivos ocorridos no Planeta Terra. Como resultado dessa colonização, ocorreram profundas alterações na paisagem do Planeta, assim como em vários processos geomorfológicos e climáticos. Além disso, condicionou diversificação de vários grupos de organismos, especialmente dos metazoários e, possivelmente também, deve ter influenciado de alguma forma a diversificação dos fungos. Mas, essa colonização e ocupação de diversos hábitats no ambiente terrestre só foram possíveis com a dispersão, propiciada, principalmente, pelos meiósporos produzidos pelo esporófito. Contudo, o esporófito, desde as primeiras plantas terrestres, sofreu várias modificações na sua morfologia e funcionalidade, resultando no amplo domínio das angiospermas, plantas que apresentam os mais variados padrões morfofuncionais dos esporófitos.
                Mas, como deve ter sido o esporófito e, consequentemente, o meiosporângio das primeiras plantas terrestres? Não existem registros fósseis que assegurem como eram esses esporófitos e nem os gametófitos. Os fósseis mais abundantes estão representados por criptósporos, mais comumente esporos simples ou em díades ou tétrades (Strother 2016), indicando que foram produzidos por meiose. Esse fato seria uma evidência inequívoca da ocorrência de alternância de gerações no ambiente terrestre. Além disso, de acordo com Strother (2016), a ultraestrutura da parede lamelada desses criptósporos parece ser homóloga àquela encontrada nas Sphaerocarpales e em Haplomitrium (Marchantiophyta), e há evidências de que alguns desses criptósporos se desenvolveram através de endosporogênese (Strother 2016), como em muitas hepáticas (Marchantiophyta) atuais.
Para uma análise dessas primeiras plantas terrestres, devemos nos reportar ao seu grupo irmão, aquele que compartilha o mesmo ancestral comum mais recente. Evidências oriundas de várias filogenias recentes (Ruhfel et al. 2014) apontam as carofíceas e, entre essas, as Zygnematophyceae, ou um clado formado por Zygnematophyceae + Coleochaetophyceae, como o provável grupo irmão das plantas terrestres. Admitindo essa hipótese, temos que considerar que as algas carofíceas apresentam ciclo haplôntico e que as plantas terrestres apresentam ciclo haplodiplôntico. Dessa forma, admite-se que ocorreu uma modificação do ciclo haplôntico em haplodiplôntico. Tal modificação foi também discutida em outro texto elaborado pelo presente autor[1].
                Embora não se conheça como poderia ter sido o ancestral direto das primeiras plantas terrestres, bem como não se saiba como seria exatamente as primeiras populações; podemos, no entanto, reconhecer algum padrão ancestral, especialmente em relação ao esporófito, nas briófitas atuais, grupo de plantas que primeiro divergiu no ambiente terrestre. Contudo, há alguma evidência fóssil apontando para um estádio transicional, o qual poderia representar o padrão ancestral das primeiras plantas terrestres. Gerrienne & Gonez (2011) apontam para a possibilidade de que o passo inicial para a terrestrialização possa ser ilustrado por Agamachates casearius Taylor & Strother, do Cambriano, representado por um pacote sinecosporal (grupo de esporos contidos em um envelope delimitado por uma parede) contendo esporos em díades e alguns em tétrades; de acordo com Taylor & Strother (2009), as díades podem ter precedido as tétrades, indicando um estágio transicional na evolução da esporogênese em plantas, quando, então, a meiose se tornou mais coordenada e sincrônica.
                As briófitas atuais, entretanto, com suas três linhagens (Marchantiophyta, Bryophyta e Anthocerotophyta) parecem representar o estádio ancestral das primeiras plantas terrestres já bem diferenciadas. Nesse grupo de plantas, o esporófito cresce sobre o gametófito e permanece fixo a este durante o seu curto tempo de vida, sendo, assim, ao menos parcialmente dependente do gametófito para a sua sobrevivência. O esporófito nas briófitas é monosporangiado, uma vez que ele não é ramificado e está representado, ao menos em Marchantiophyta e Bryophyta, por um pé haustorial que o liga ao gametófito, um pedúnculo ou seta (eixo axial vegetativo áfilo) e um único esporângio (meiosporângio) no ápice; em Anthocerotophyta, o esporófito não apresenta seta, ou seja, o eixo axial vegetativo, mas apenas um esporângio alongado. Contudo, esse esporófito apresenta crescimento contínuo em razão da presença de um meristema basal persistente, e é clorofilado, o que lhe permite certa independência nutricional em relação ao gametófito.
                O meiosporângio das briófitas, em qualquer uma das linhagens é, conceptual e funcionalmente, um homosporângio, ou seja, um esporângio que produz um único tipo de esporo. Embora alguns musgos (Bryophyta) possam produzir esporos com tamanhos desiguais, um menor, outro um pouco maior, porém, esse fato não pode ser considerado como uma heterosporia, uma vez que ambos são produzidos por um mesmo meiosporângio. No caso de uma verdadeira heterosporia, dois tipos de meiosporângios são formados, cada um deles produzindo um tipo de esporo. Assim, no caso das briófitas, trata-se apenas de anisosporia. No caso das briófitas com anisosporia, o esporo menor desenvolve gametófito masculino e o esporo maior, gametófito feminino.
                Entre as plantas terrestres, os meiosporângios das briófitas não estão associados a folhas, em razão da ausência dessa estrutura no esporófito, que também não se ramifica e por isso apresenta apenas um único meiosporângio. Diferentemente das traqueófitas, o tecido esporogênico nas briófitas desenvolve-se ainda no embrião, mesmo após a diferenciação do eixo vegetativo axial (seta), como ocorre entre as Bryophyta e Marchantiophyta. Contudo, algumas linhagens basais de Bryophyta, como Sphagnopsida e Andreaeopsida, não desenvolvem seta, sendo o meiosporângio elevado por um pseudopódio, estrutura gametofítica, portanto, haploide.
                O modo de deiscência do meiosporângio (mecanismo de abertura do meiosporângio) varia entre as linhagens das briófitas. Em Bryophyta, aqueles que apresentam deiscência (musgos estegocárpicos), esta pode ser valvar ou helicoidal simples, como em algumas linhagens basais, ou ser opercular, como na maioria. Nos musgos cujo meiosporângio é indeiscente (sem mecanismo de abertura, os musgos cleistocárpicos), os meiósporos são liberados mediante rompimento da parede do meiosporângio. Nos musgos com deiscência opercular, pode ocorrer uma estrutura situada na periferia da boca ou estômio do meiosporângio, denominada peristômio. Essa estrutura é constituída de elementos denominados dentes. Cada dente do peristômio pode ser formado por uma única célula alongada (peristômio nematodonte), ou por uma (peristômio haplolepídeo) ou duas colunas (peristômio diplolepídeo) de células; nesse caso, denomina-se peristômio artrodonte. Em ambos os casos, os dentes do peristômio são formados por células mortas na maturidade, restando apenas as suas paredes verticais (Goffinet et al. 2009). O peristômio artrodonte pode apresentar um único anel de dentes (peristômio simples) ou em dois anéis de dentes (peristômio duplo). O peristômio apresenta movimentos higroscópicos que expulsa a massa de esporos expondo-a ao ar, já que o modo principal de dispersão é através do vento (anemofilia). Para maiores detalhes consultar obra sobre morfologia de briófitas.

III – O MEIOSPORÂNGIO DAS PRIMEIRAS TRAQUEÓFITAS (POLISPORANGIÓFITAS)

                As primeiras traqueófitas, genericamente denominadas polisporangiófitas devido aos seus múltiplos esporângios em razão das ramificações dicotômicas do eixo axial aéreo, apresentavam os seus meiosporângios no ápice dos ramos, como em muitas riniófitas e táxons basais às licófitas, como Cooksonia e táxons relacionados. Para uma melhor análise dos meiosporângios das primeiras traqueófitas, temos que considerar a forma, a deiscência e a posição dos meiosporângios, pois mudanças evolutivas ocorreram nesses três atributos.
                Em relação à forma, distinguem-se os seguintes tipos de meiosporângios: (1) Cilíndrico, como em Horneophyton, podendo possuir uma columela; (2) Fusiforme, como na maioria das riniófitas; (3) Elipsoidal, como em algumas riniófitas; (4) Espatulado, como alguns táxons relacionados à riniófitas (senso lato); (5) Reniforme, como em Cooksonia e todas as licófitas, atuais e extintas. Com relação à deiscência, observa-se que as primeiras traqueófitas apresentavam três tipos de deiscência: (1) Múltipla espiral, como em algumas riniófitas; (2) Longitudinal, como na maioria das riniófitas; (3) Transversal, como em Cooksonia e táxons relacionados, e nas licófitas. Vale ressaltar que os táxons com esporângios reniformes e espatulados apresentavam deiscência transversal, diferentemente daqueles que tinham esporângios fusiformes, cuja deiscência era longitudinal ou espiralada (Kenrick & Crane 1997).
 Considerando agora a posição do meiosporângio, todas as riniófitas, Cooksonia e táxons relacionados, apresentavam os seus meiosporângios em posição apical. No entanto, todas as licófitas, incluindo os táxons basais já extintos, pertencentes à Zoosterophyllales, possuíam os seus meiosporângios em posição lateral nos ramos. Dessa forma, pode ser assinalado uma grande mudança evolutiva que definiu a separação entre as licófitas e as riniófitas e táxons relacionados: a posição do meiosporângio, que passou de apical (nas riniófitas e táxons relacionados) para lateral (em todas as licófitas, extintas e atuais).

IV – O MEIOSPORÂNGIO DAS TRAQUEÓFITAS: HOMOSPORIA E HETEROSPORIA

                Todas as riniófitas e táxons relacionados, bem como as licófitas basais (Zoosterophyllales e Lycopodiales) são homosporadas, ou seja, apresentam homosporângios, os quais produzem apenas esporos de um único tipo, os quais irão desenvolver gametófitos monoicos, como se observa nas licófitas basais atuais e na maioria das monilófitas (samambaias). Provavelmente, os gametófitos bem desenvolvidos e, aparentemente, de vida livre de muitas riniófitas e táxons relacionados, eram monoicos.
A homosporia é, então, definida pela presença de meiosporângios (homosporângios) que produzem apenas um tipo de meiósporo. No caso, o meiósporo (homósporo) desenvolverá gametófito monoico, ou seja, gametófito que produz tanto anterídios (gametângios masculinos) quanto arquegônios (gametângios femininos). A homosporia ocorre em todas as Lycopodiales e na maioria das monilófitas. A heterosporia surgiu cedo na evolução das plantas terrestres, uma vez que está presente nas licófitas, grupo de traqueófitas atuais que primeiro divergiu. A heterosporia, nesse grupo, surgiu nas Selaginellales e Isoetales, sendo que as Lycopodiales (basais) são homospóricas.
                               A heterosporia é definida pela presença de dois tipos de meioesporângios (heterosporângio): (1) Microsporângios, que formam grande número de esporos pequenos (micrósporos). Esses micrósporos desenvolverão gametófitos masculinos; (2) Macrosporângios ou Megasporângios, que formam pequeno número de meiósporos grandes, denominados megásporos ou macrósporos, os quais desenvolverão gametófitos femininos. A heterosporia ocorre nas Selaginellales e Isoetales (licófitas), mas nas monilófitas (grupo irmão das espermatófitas) surgiu apenas nas Salviniales, grupo de samambaias aquáticas. Interessante é que o heterosporângio surgiu em todas as espermatófitas. Nesse grupo, sofreu intensas modificações, especialmente nas angiospermas.
                A heterosporia passou a ser dominante a partir das espermatófitas e táxons relacionados, já extintos. A ocorrência de heterosporia permitiu o surgimento das flores e da semente, através de profundas modificações que ocorreram nos microsporângios, nos megasporângios e nos respectivos esporofilos. O heterosporângio tem grande importância evolutiva, não só porque surgiu inicialmente nos grupos mais derivados das licófitas, mas também pelo fato de que propiciou o surgimento da semente. Sobre esse tema, consultar o texto escrito pelo autor[2].
                A história evolutiva do meiosporângio a partir das plantas heterosporadas é bastante complexa, incluindo modificações na forma e localização, bem como de suas folhas associadas, microsporofilos e megasporofilos. Nas licófitas, os heterosporângios estão agrupados em um mesmo eixo, portanto, o estróbilo possui tanto microsporângios, subtendidos por microsporofilos, quanto megasporângios, subtendidos por megasporofilos. Contudo, já nas espermatófitas, mesmo nos grupos fósseis a elas relacionados, observa-se já uma modificação na distribuição espacial dos heterosporângios: ramos portando apenas microsporofilos com microsporângios e ramos portando apenas megasporofilos e megasporângios; dessa forma, observam-se já estróbilos masculinos e estróbilos femininos. Esse modelo já pode ser observado em plantas fósseis, tais como Crossotheca e Caytonia, ambas do Devoniano Superior, e nas gimnospermas atuais (Bresinsky et al. 2014). Contudo, essa estrutura em estróbilo já sustentava rudimentos seminais ou óvulos, que nada mais são do que megasporângios envolvidos por tegumentos.
                A origem do óvulo ou rudimento seminal, especialmente dos tegumentos, ainda é discutida. São admitidas duas teorias para a origem do rudimento seminal: (1) Teoria dos Telomas, que preconiza que o rudimento seminal teve origem a partir do concrescimento de um sistema de eixos vegetativos e esporangiais, em que a parte vegetativa teria se desenvolvido nos tegumentos em torno de um único megasporângio funcional; (2) Teoria Neosinangial, a qual postula que o rudimento seminal teria se originado por progressiva esterilização e concrescimento (fusão) de todos os megasporângios, exceto um que permaneceu funcional (Bresinsky et al. 2012). Considerando a disposição dos esporângios em um sistema de eixos portadores apenas de esporângios, como encontrados em plantas fósseis, tais como Tetraxylopteris e Aechaeopteris, ambos os gêneros do Devoniano Médio, parece que a Teoria Neosinangial é a mais provável (Bresinsky et al. 2012). Em algumas outras plantas fósseis, os rudimentos seminais estavam distribuídos isoladamente (como em Genomosperma) ou em grupos (como em Calathospermum) e apresentavam um tegumento lobado no ápice, denominado cúpula (Bresinsky et al. 2012).
                Em relação aos microsporângios, observa-se que em plantas fósseis, tais como Lyginopteris e Crossotheca, por exemplo, os microsporângios eram dispostos em grupos radiais e muitas vezes concrescidos uns aos outros (Bresinsky et al. 2012).
                Nas angiospermas, entretanto, essa organização em estróbilo já não é mais reconhecida, sendo os ramos esporangiais dispostos em verticilos. Contudo, algumas gimnospermas fósseis como, por exemplo, em Williamsoniella, uma planta do Jurássico, observa-se já uma tendência para a disposição verticilada dos ramos esporangiais; os microsporofilos portando microsporângios se localizam logo abaixo do receptáculo ovular, portando vários megasporofilos escamiformes e megasporângios, ou mais propriamente, rudimentos seminais; toda essa estrutura verticilada está protegida por brácteas (ver Bresinsky et al. 2012).
Existem duas teorias ou hipótese para a origem da flor das angiospermas: (1) Teoria Euantial, a qual preconiza que o ancestral das angiospermas já possuía flores hermafroditas, ou seja, um sistema com ramos microsporangiais e megasporangiais, e que essa flor, assim, seria um sistema monoaxial com microsporofilos e megasporofilos; (2) Teoria Pseudantial, a qual postula que a flor teria se originado a partir da condensação de um sistema de eixos (eixos microsporangiais e eixos megasporangiais) com eixo principal e eixos laterais (Bresinsky et al. 2012). A Teoria Euntial parece ser a mais aceita, uma vez que um gênero fóssil, Caytonia, oferece um modelo que reflete essa teoria; Caytonia possui microsporofilos e megasporofilos pinados em flores possivelmente hermafroditas, sendo que os megasporofilos consistiam em uma raque com cúpulas laterais e microsporofilos também pinados, portando grupos laterais com sacos polínicos; os carpelos poderiam ter sido originados da modificação da raque em uma estrutura plana que envolveu os rudimentos seminais, e os microsporofilos podem ter sofrido redução a um estilete com dois sinângios e dois sacos polínicos (Bresinsky et al. 2012). Para maiores detalhes sobre ambas as teorias, consultar obras específicas que tratam da evolução da flor.
                A história evolutiva dos meiosporângios, assim, se continua com o surgimento da flor, órgão que porta microsporofilos modificados (filete) que sustenta sinângios (anteras), e megasporofilos altamente modificados que protegem e envolvem os megasporângios, em uma estrutura completa denominada ovário. Apresenta, também, um conjunto de verticilos vegetativos modificados, o cálice e a corola, cuja função ultrapassa a simples proteção. Para maiores detalhes consultar obras específicas sobre evolução e morfologia floral.

REFERÊNCIAS

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Bresinsky, a., Körner, C., Kadereit, J.W., Neuhaus, G. & Sonnewald, U. 2012. Tratado de Botânica de Strasburger. Tradução: Alessandra Fidelis. 36 ed. Porto Alegre: Artmed.
Gerrienne, P. & Gonez, p. 2011. Early evolution of life cycle in Embryophytes: A focus on the fossil evidence of gametophyte/sporophyte size and morphological complexity. Journal of Systematic and Evolution 49(1): 1-16.
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Ruhfel, B.R., Gitzendanner, A., Soltis, P.S., Soltis, D.E. & Burleigh, J.G. 2014. From algae to angiosperms – inferring the phylogeny of green plants (Viridiplantae) from 360 plastids genomes. BMC Evolutionary Biology 14: 23 (http://www.biomedcentral.com/1471-2148/14/23).
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[1] Bastos, C.J.P. Origem e Evolução das Embriófitas. O Começo de uma Longa História Evolutiva. (cjpbasto.blogspot.com.br)
[2] Bastos, C.J.P. Breve Ensaio sobre a Evolução do Processo Reprodutivo: Do esporo à semente. (cjpbasto.blogspot.com.br)

domingo, 4 de setembro de 2016

TEXTOS DIDÁTICOS, SÉRIE BOTÂNICA (2003).


BRIÓFITAS COMO BIOINDICADORES E BIOMONITORES DE POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA

Cid José Passos Bastos
Universidade Federal da Bahia
Instituto de Biologia
cjpbasto@ufba.br
cidbastos@gmail.com



Briófitas constituem um grupo de plantas de relativa simplicidade estrutural, cuja fase dominante do ciclo biológico está representada pelo gametófito, e se caracterizam pela ausência de: a) sistema radicular; b) tecidos lignificados e/ou suberizados; c) esporófito não ramificado, monoesporangiado e efêmero; d) gametófito com funções vegetativas. Essas características restringem o tamanho que essas plantas podem atingir, bem como impõem mecanismos fisiológicos de proteção contra dessecação. Crescem em grande variedade de habitats, em condições higrófilas, mésicas e xéricas. São poiquilohídricas, desenvolvendo baixos potenciais hídricos intracelulares, o que lhes permite crescer em regiões de clima semiárido a semidesértico. Obtêm água e nutrientes diretamente do substrato ou do ambiente atmosférico úmido, por toda a superfície do gametófito. Quanto à condução de água, a maioria das briófitas é ectohídrica, conduzindo água principalmente através de espaços capilares externos, sendo que poucas são endohídricas, apresentando condução interna mediante sistema condutor simples e não lignificado. Outras podem, ainda, conduzir água tanto por vias internas quanto externas, sendo, portanto, mixohídricas.
A relação entre poluição e briófitas tem sido exaustivamente estudada por vários pesquisadores, em muitos países. A literatura envolvendo briófitas e poluição em relação aos efeitos e ao biomonitoramento, é bastante extensa, incluindo poluentes gasosos, poeiras metálicas e outros, além de compostos orgânicos, principalmente hidrocarbonetos.
As briófitas têm sido muito utilizadas em biomonitoramento de poluição atmosférica, principalmente por dióxido de enxofre (SO2) e metais-traço (Cooker, 1967; Gilbert 1968, 1970; Ellinsonet al., 1976; Rinne & Bercley-Estrup, 1980; Onianwa & Egunyomi, 1983; Onianwa et al., 1986; Gutberlet, 1989; Hallingbäck, 1992; Bates, 1993; Brümelis & Brown, 1997; Ceburnis et al., 1997; Samecka-Cymerman et al., 2000; Grodzinzka & Szarek-Lukarzenska, 2001; Bargagli et al., 2002). De acordo com Rao (1982), as briófitas são indicadores potenciais de poluição atmosférica em razão das seguintes características: (a) simplicidade estrutural; (b) alta capacidade de troca iônica; (c) alta retenção mecânica; (d) rápida taxa de multiplicação vegetativa; (e) ampla distribuição.
As briófitas apresentam maior grau de sensibilidade a poluentes e são capazes de acumular metais a taxas mais altas do que muitas plantas vasculares, sendo que algumas espécies apresentam maior resistência a determinados poluentes e conseguem se desenvolver relativamente bem em aglomerados industriais e urbanos. Entretanto, a maioria é bastante sensível, desaparecendo das áreas industriais e urbanas. Assim, industrialização e urbanização são os fatores responsáveis pelo empobrecimento da brioflora, por provocarem profundas alterações no ambiente.
Embora as briófitas tenham sempre sido referidas como bons bioindicadores e biomonitores de poluição, algumas reflexões merecem ser aduzidas. Existem dois aspectos a serem considerados: (a) a alteração do habitat e (b) os poluentes. Em relação ao primeiro aspecto, alterações do habitat, devemos considerar que, pela própria simplicidade estrutural, as briófitas são muito sensíveis a essas alterações, sendo a brioflora de um ambiente alterado essencialmente diferente daquela de um preservado. Assim, Bastos & Yano (1993) estudando os musgos da cidade de Salvador, verificaram que a composição em espécies da comunidade que cresce em áreas de vegetação (parques e hortos florestais) diferia daquela do centro urbano, sujeito a maiores interferências antrópicas, sendo a primeira caracterizada, na maioria, por espécies epífitas plagiotrópicas.
A alteração de qualquer paisagem natural, seja por urbanização, seja para implantação de complexos industriais, resulta na perda de substratos específicos e em uma maior exposição à radiação solar. Ambos são fatores responsáveis diretos pela modificação da composição brioflorística, dando lugar a substituição de espécies ciófilas por heliófilas, e de epífitas por terrícolas e rupícolas ou saxícolas, habitats tipicamente pioneiros e ruderais, em se tratando de briófitas. Além disso, o aparecimento de substratos artificiais (calçamentos, muros e superfícies outras) propicia a colonização de uma comunidade característica, representada por espécies urbanícolas ou ruderais. Com relação ao outro aspecto, os poluentes, já é fato bem conhecido que briófitas apresentam acentuada sensibilidade aos poluentes atmosféricos, notadamente dióxido de enxofre, uma vez que essas plantas, destituídas de tecidos vasculares e de cutícula espessa, obtêm os nutrientes via deposição atmosférica, ou por absorção direta do substrato, por difusão. Esse fato é responsável pela entrada de poluentes no corpo dessas plantas.
Muitos autores, em vários países, têm notado o empobrecimento das populações de briófitas em áreas urbanas e industriais, e reportam a poluição como principal fator, embora alguns outros atribuam essa escassez em áreas urbanas a problemas de disponibilidade de água (LeBlanc & Rao 1973). Desse modo, seria possível avaliar-se o grau de degradação ambiental de uma determinada área pelo estudo da dinâmica das populações de briófitas presentes nessa área. Foi verificado que as epífitas são bem mais sensíveis aos poluentes atmosféricos do que as terrícolas e saxícolas (Stringer & Stringer 1974, LeBlanc & de Sloover 1970). Com base nisso, utiliza-se o estudo da diversidade de briófitas epífitas como meio de avaliação da qualidade do ar em áreas industriais e urbanas. As epífitas sofrem não só o efeito direto dos poluentes, mas também através de seu substrato, uma vez que os poluentes são, também, absorvidos e acumulados na periderme do tronco das forófitas, como assinala Osibanjo & Ajayi (1980), e esses poluentes podem ser absorvidos pelas briófitas. Do mesmo modo, as terrícolas podem não só absorver poluentes depositados diretamente da atmosfera, mas também do substrato.
A distribuição das epífitas na forófita deve ser considerada. De um modo geral, aquelas que crescem ao longo do tronco e no dossel são mais sensíveis aos poluentes, por estarem mais expostas à deposição e aos mais baixos teores de umidade, do que aquelas que crescem na base dos troncos, provavelmente porque esse micro-habitat ofereça maior proteção contra a deposição de poluentes, além de apresentar teores de umidade mais elevados. Isso é observado em áreas industriais. Nas áreas urbanas, por outro lado, observa-se que maior número de epífitas ocorre ao longo do tronco e no dossel, ficando a base do tronco praticamente desprovido de epífitas. Nesse caso, como a base do tronco está mais exposta, o teor de umidade é mais baixo e está mais sujeita às emissões, principalmente aquelas oriundas de descargas de automóveis, sendo que a parte superior do tronco e o dossel oferecem, assim, maior proteção contra esses fatores adversos.
A forma de crescimento das briófitas também influencia a absorção e acumulação de poluentes, principalmente metais. Gilbert (1970) verificou que existia gradiente de resistência à poluição das espécies plagiotrópicas (prostradas) ramificadas - mais sensíveis - para as ortotrópicas (eretas) - menos sensíveis. Gametófitos plagiotrópicos e densamente ramificados apresentam maior capacidade de retenção dos poluentes que os ortotrópicos, especialmente aqueles formados por aglomerados não compactos. Estes últimos, os ortotrópicos formados em agregados densos e compactos, retêm mais os poluentes metálicos. Existe, também, gradiente de resistência das espécies epífitas (menos resistentes) para as terrícolas e saxícolas (mais resistentes). Foi verificada, também, uma relação com a idade dos gametófitos. Gametófitos mais velhos acumulam teores mais elevados de poluentes do que gametófitos mais jovens. Esses aspectos, relacionados ao habitat e forma de crescimento, não se restringem apenas a ambientes poluídos. Habitats expostos tendem a ser colonizados por espécies ortotrópicas e heliófilas, que crescem em aglomerados esparsos ou densos, enquanto que habitats mais protegidos tendem a ser colonizados por espécies plagiotrópicas e ciófilas. Fatores abióticos também influenciam na absorção de poluentes. Temperatura elevada, alta intensidade luminosa e alta umidade favorecem a absorção e a acumulação de poluentes.
Com base nessas considerações, é possível agora avaliar-se com mais propriedade a relação entre briófitas e poluição, e sua utilização como bioindicadores e biomonitores. Devemos considerar que: (a) para a instalação de um complexo industrial ou de um empreendimento urbano, é necessário alterar a paisagem natural, e que a alteração da paisagem provoca modificações na composição brioflorística local, por modificação dos habitats e substratos, propiciando o aparecimento de espécies pioneiras e oportunistas; (b) os efeitos dos poluentes emitidos por um complexo industrial para a brioflora agora instalada, adaptada às condições de um meio ambiente alterado, é mais acentuado em longo prazo ou por uma situação de estresse mais intenso; muitas vezes, em uma área industrial, só conseguem sobreviver espécies toxitolerantes, quanto maior mais próxima estiver a fonte emissora de poluentes, ocorrendo casos em que nenhuma espécie sobrevive. Além desses aspectos, seria necessário comparar-se a brioflora do local poluído com outra de uma área não impactada, só que essa área teria que apresentar características ambientais e fisionômicas semelhantes, o que nem sempre é possível. Assim, uma simples análise florística e fitossociológica pouca informação fornece a respeito da poluição e seus efeitos. É difícil se estabelecer a causa real do empobrecimento da brioflora, se por efeito dos poluentes, ou se devido à própria alteração do habitat natural. É evidente que poluentes, atuando gradativamente sobre as populações de briófitas, tendem a reduzi-las e a diminuir cada vez mais a diversidade e riqueza em espécies, dando lugar ao aparecimento de espécies toxitolerantes, as quais, muitas vezes, a depender da proximidade da fonte emissora, não mais resistem e acabam desaparecendo, ficando a área totalmente livre de briófitas. A modificação do habitat por outras atividades antrópicas reduz também a riqueza e a diversidade, mas não na mesma proporção. A questão que coloco não é a sensibilidade das briófitas à poluição, mas sim a sua utilidade como bioindicadores de poluição, uma vez que uma simples alteração da paisagem natural já modifica a brioflora. Briófitas, nessa óptica, são bons bioindicadores de alteração do habitat, sendo um excelente instrumento para avaliar-se o grau de preservação de uma área. Com base nessas considerações, a aplicação de métodos de biomonitoramento passivo, através da análise periódica para quantificação dos poluentes acumulados, e de biomonitoramento ativo, com implantação de técnicas de moss bag ou de transplantes, utilizando briófitas oriundas de um local não impactado, são necessários para avaliar-se a poluição atmosférica de um dado local. Contudo, alguns aspectos dessas metodologias merecem ser analisados. O biomonitoramento passivo, feito através da análise do conteúdo de poluentes da brioflora local, muitas vezes oferece alguns problemas. Se forem estabelecidos pontos de amostragem a partir de um referencial de dada indústria, considerando a distância da fonte emissora e a direção predominante dos ventos, as espécies a serem analisadas deveriam estar presentes em todos os pontos e em quantidade suficiente para análise, o que, infelizmente, nem sempre ocorre, causando um problema metodológico de difícil solução. Além disso, seria necessário conhecer-se a taxa de concentração inicial de determinados compostos ou elementos que se quer avaliar, a partir de espécies oriundas de uma área não impactada, para que se possa comparar com os resultados obtidos.
Em relação ao biomonitoramento ativo, o método de transplante deve ser feito tomando certos cuidados metodológico. Um dos mais importantes relaciona-se com o local de onde é retirado o espécime a ser transplantado. Considerando que em um complexo industrial o ambiente está sensivelmente alterado na sua fisionomia, não faz sentido retirar os espécimes a serem transplantados de uma floresta ombrófila preservada, porque não resistiriam naturalmente às condições ambientais da área do complexo industrial, antes mesmo que os poluentes atuassem de modo a prejudicá-los, ou no mínimo, essas condições teriam um efeito sinérgico. Assim, os espécimes devem ser retirados de uma área já alterada fisionomicamente, que mais se aproximasse da fisionomia da área industrial, porém sem impacto de poluentes. Quanto ao método de moss bag, este parece ser o mais seguro e adequado, metodologicamente. Contudo, alguns cuidados também devem ser tomados. A espécie a ser utilizada deve ser reconhecidamente bioacumuladora. O musgo Sphagnum parece ser o mais adequado, pois reúne as condições de um bom bioacumulador, pelo menos para metais, devido à sua capacidade de troca de cátions e à sua estrutura anatômica. Outro cuidado que deve ser tomado é com o tempo de exposição, o qual não é recomendado que ultrapassasse um mês, uma vez que fatores ambientais tais como pluviosidade, podem interferir provocando perdas por lixiviação, principalmente se o poluente for solúvel, como sulfato, por exemplo, ou devido a fatores intrínsecos, tais como saturação, o que ocasionaria não absorção do poluente e sua perda eventual por lixiviação.
Considerando o que foi exposto, embora as briófitas sejam reconhecidamente bons biomonitores por sua sensibilidade aos poluentes e com alto poder de acumulação, a escolha da metodologia a ser aplicada e o bom senso na avaliação dos resultados, são essenciais para se alcançar bons resultados na avaliação da qualidade do ar. Quanto ao fato das briófitas serem bons bioindicadores, esse aspecto deve ser considerado com bastante cuidado e bom senso, uma vez que os efeitos dos poluentes e da própria alteração do ambiente natural se interpenetram, dando como resultado uma brioflora característica, sendo difícil separar os dois efeitos, no sentido de se saber qual o responsável ou o que teria maior preponderância, pela presença daquelas espécies e sua dinâmica. Como conclusão, pode considerar-se que as briófitas são bons biomonitores, mas quanto a serem bons bioindicadores de poluição, é questionável. No entanto, são excelentes bioindicadores do grau de preservação do meio ambiente.

LITERATURA CITADA

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sábado, 2 de janeiro de 2016

BREVE COMENTÁRIO SOBRE RELIGIÕES: SÃO NECESSÁRIAS?

Cid José Passos Bastos

Apenas uma breve análise sobre as Religiões, de um modo geral. Ao longo da História da Humanidade, desde o início da vida social, o Homem sempre procurou adorar algo ou alguma simbologia, ou fenômeno natural, o qual ele desconhecia a origem e o mecanismo de funcionamento, gerando temor. Essa adoração, com o tempo, foi alçada ao status de adoração a uma divindade, ou a várias divindades. Quando essa adoração passou a ser controlada por determinadas castas, todos os problemas ligados à religião começaram.

Muito já se assassinou, muitas vezes com o título de “sacrifícios aos deuses”, consciente ou inconscientemente. Desde a era cristã, muitos crimes foram cometidos, guerras declaradas e uma multiplicidade de intrigas foram perpetradas, especialmente pela Igreja, instituição criada para atender aos cultos religiosos. Não nos esqueçamos da Inquisição, responsável por tantos crimes e atrasos no progresso da Humanidade.

Na atualidade, as Religiões ainda são instrumentos de exploração, de intolerância, de discórdia e de fanatismos, provocando nas pessoas, muitas vezes, falta de discernimento. Discussões infrutíferas são provocadas, sobre qual ou quais Religiões seriam mais “adequadas”, ou que levariam verdadeiramente a Deus, como se “Deus” fosse uma personalidade. Não estou ignorando que, em muitos casos, Religiões possam ter provocado mudanças de atitude para melhor, nem tão pouco desconhecendo alguns trabalhos de cunho social e humanitário por parte de algumas Religiões. Mas, pesando na balança, observo muito mais preconceitos e fanatismos em muitas pessoas.

Ser ético, praticar o bem, ser honesto, justo, compreensível e humanitário não são virtudes inerentes às Religiões ou àqueles que as praticam, mas fazem parte da personalidade de cada um, independente da crença ou de religiões que professem ou não. Fico pensando, então, se as Religiões são necessárias. Mesmo considerando a crença em um Deus (ou a vários), esta não depende, igualmente, de se professar uma Religião. É uma questão de fé e não de doutrina religiosa. Mesmo se tratando de orações ou outra forma de culto ou adoração, também não dependem de uma igreja para que possam ser proferidas. Novamente, é uma questão de fé e não do local onde sejam proferidas.

Não cabe nesse breve comentário levantar qualquer questão sobre crença em Deus ou não. Isso é íntimo de cada pessoa. Contudo, creio que não há necessidade da existência de Religião, seja ela qual for.