sábado, 15 de novembro de 2014

O ELOGIO DO EGOÍSMO
Prof. Dr. Cid José Passos Bastos
Universidade Federal da Bahia
Instituto de Biologia

Ah! Agradeço à minha mãe, a Loucura, pela oportunidade que tive de dirigir as atitudes humanas, dividindo com ela essa supremacia sobre o gênero humano! Agradeço, também, a ela, a Loucura, por ter permitido que eu igualmente fizesse esse discurso, tal como ela fez há muito tempo atrás. Então, para vocês humanos, iniciarei o meu discurso!
Para iniciar esse discurso, lhes informo que seria demasiado enfadonho tratar de todas as minhas ações sobre vocês, seres humanos, uma vez que muitas de suas atitudes são frutos de minhas ações, muito mais do possais imaginar, desde as pequenas como as grandes atitudes! Agradecei a mim, humanos, a sua aparente supremacia sobre os outros seres da Terra! Eu assim os fiz acreditar! Mas, isso não foi bom, confortavelmente bom para o vosso atormentado espírito? Como vocês reagiriam se soubessem que não são mais do que os outros seres do planeta e acima de seus semelhantes humanos? Ah! Meus caros humanos, que enorme favor eu lhes fiz! Inimaginável!
Comecemos, então, pelo aspecto biológico que, certamente, acrediteis que nisso eu não teria razão. Vós estais enganados! Acham vocês, então, superiores aos demais seres do planeta? Pois bem! Perdoem-me por demonstrares, agora, a verdade, embora ela, a Verdade, não seja minha amiga; prefiro a Dissimulação, essa querida prima que eu prezo tanto! Já pensastes que dependes de toda uma rede de interações de todos os organismos vivos, desde os mais simples, unicelulares a subcelulares, aos mais complexos, e que sem eles vós não sobreviveríeis? Se vocês se alimentam é porque, inicialmente, um grupo de organismos transformou a energia eletromagnética em energia química, de ligação entre moléculas, e de fácil transferência para possibilitar a ocorrência de outra ligação química (vejam vocês, eu falando cientificamente bonito!). Acham, por acaso, que o dinheiro é que fabrica os alimentos? Ah, o dinheiro, grande criação minha, ao menos tive alguma participação na sua utilização. Ou talvez vocês pensem que tudo que existe é para lhes satisfazer! Quanta ingenuidade! Tudo que existe é para o bem de tudo e de todos; vós sois frutos dessa interação, e não os privilegiados! Não entendeis ainda o que é a evolução? Não conhecestes, realmente, o que aqui na Terra se chama de ecologia? Ora, pensais que o teu conhecimento parco das interações entres os seres do planeta, vivos e não vivos, já vos fazem semideuses? Minha grande amiga e irmã, a Vaidade, tem muita responsabilidade com isso. Agradeço enormemente a ela! Pois eu diria que o verdadeiro princípio ecológico é este, as quatro interações, até então conhecidas: interação nuclear forte, interação nuclear fraca, interação eletromagnética e interação gravitacional. Mas, pensais que é só isto? Isso é apenas o que vocês tiveram possibilidade de vislumbrar! Sigam a sua evolução que, um dia, em uma época bem futura, podereis compreender o significado das interações que mantém o Cosmos. Mas, ora, não fujamos do assunto desse Discurso! Vocês entenderam essa primeira parte do Discurso? Não? Se não entenderam, ótimo, porque mostra o quanto domino vocês! Que maravilha!
Passemos à análise seguinte, ainda considerando aspectos biológicos. Vamos nos reportar agora à poluição, mas apenas com o conceito restrito às vossas ações. Considerando a eliminação de resíduos, o que, de fato, ainda é inevitável em razão da constituição da matéria que lhes forma o corpo e os demais constituintes do Planeta Terra (a Lei da Entropia é implacável, nesse aspecto), qual a minha participação, afinal? Ora, reflexionemos. Vamos considerar a vida social presente. Para fabricar qualquer bem de consumo (viu, eu falei consumo, e isso é a base de tudo!), é necessário extrair matéria prima ou reciclar a que já foi transformada; pois bem, tudo isso gera resíduo e, portanto, poluição. Então, o comportamento egoístico faz com que vocês utilizem mais do que verdadeiramente seria necessário, forçando a cadeia de produção no seu início e gerando mais e mais resíduos. O aspecto financeiro tem muita responsabilidade nisso. Vejamos: o uso de combustíveis fósseis, como o petróleo, por exemplo, é fonte de enormes resíduos prejudiciais, mas também é fonte de lucro direto e indireto para muitos grupos que se acham dominante em razão do poder (poder? Ah!) financeiro. Deu para entender, caros humanos? Não? Que bom! Isso prova, mais uma vez, o meu inteiro domínio sobre vocês.
Vou falar de outro assunto, que poucos reportam como de minha responsabilidade. A fome! Vocês, humanos, acham que a fome no mundo é um problema socioeconômico? Pois estão enganados! A fome é um problema moral! Ora, como? Eu, o Egoísmo, sou o grande responsável. Vou mostrar que estou certo nessa minha afirmativa. Vou começar fazendo algumas questões: por que as Nações ainda não fizeram um grande fundo de alimentos, para serem devida e honestamente (Ah! Eis um dos grandes problemas humanos) distribuídos com os povos menos afortunados (que são muitos, por sinal)? Por que preferem as guerras e outras disputas inúteis? Caros humanos, não há escassez de alimentos e nem de recursos financeiros, há, sim, o egoísmo, ou seja, eu! Para exercer essa minha ação sobre vocês, conto com as minhas filhas queridas: a Usura, a Mesquinhez, a Impiedade e, grande filha, a Ganância! Elas são imbatíveis, não? Também conto com a minha grande amiga, a Dissimulação, que tanto me auxilia. Mas, que ingratidão, não falar aqui de duas grandes aliadas, a Mentira e a Falsidade! Minhas grandes amigas, aliadas nessa ação sobre vocês, caros humanos.
Querem mais provas? Será mesmo necessário? Acho que não. Vocês não podem ignorar esse fato: eu, o grande Egoísmo, sou o responsável por essa e tantas outras mazelas sociais. Acham que não? Ótimo, pois mais uma vez, é prova de minha ação sobre vocês.
E as doenças? Como no caso da fome, a falta de tratamento adequado e investimentos são devidos a que? Claro, a mim, o grande Egoísmo! Conto com as mesmas aliadas nesse processo. Mais uma vez pergunto: acham que não? Bem, se ainda acham que estou exagerando, ótimo, minha influência sobre vocês é realmente forte!
Caríssimos! Vou falar um pouco de outro grande problema social: a violência. Vocês pensam, acaso, que também a violência é um problema social ou socioeconômico? Quanta ingenuidade! Violência, como a fome, é um problema moral! Quem é o responsável? É claro, eu, o Egoísmo, sou o grande responsável por essa mazela. Não? Como não? Por acaso a violência só ocorre nos meios sociais menos afortunados, financeira e socialmente falando? Prestem mais atenção às coisas e acontecimentos do dia a dia; vejam quanta violência explode entre os mais ricos e mais instruídos! As Nações se digladiam, sejam as mais ricas, sejam as mais pobres! E tudo pelo poder, pelo lucro fácil e exacerbado! As pessoas usam de violência para com outras por vários motivos: antipatia, vingança, inveja, disputa, entre tantos outros motivos. E quem vocês acham que está no comando de todos esses sentimentos? Eu, o grande Egoísmo, é claro. Duvida? Ótimo, então, porque isso mostra que ainda estou no comando!
Bem que eu poderia falar de tantas outras coisas pelas quais sou o responsável, mas, isso se tornaria muito extenso e, como disse antes, talvez enfadonho. Porém, lembro-lhes de que em tudo eu estou diretamente envolvido, em tudo que é considerado como antiético, desonesto, enfim, as chamadas mazelas sociais, inseridas na política (essa então, tenho grandes ações), no esporte, no lazer, nos afazeres diários (aquelas pequenas disputas que considerais quase que inocentes e inerentes ao gênero humano – mas que pretensão!), na educação (grande campo de ação eu tenho aí), no trabalho (nossa, como eu trabalho nisso!), nas relações sociais (essa então?!), nas religiões (Ah! Como eu tenho ação nas religiões, e bem marcante!); bem, eu poderia levar todo o tempo enumerando as minhas ações, mas deixo isso para que vocês possam reflexionar. E os meus diletos produtos, como esquecê-los? São alguns deles: a prepotência, a arrogância, a maledicência...
Aqui me despeço na certeza de que estou fazendo o meu melhor, e esse discurso apenas mostrou em linhas gerais o quanto eu tenho ação sobre vocês. Podem reflexionar o quanto quiserem sobre o que lhes foi dito e, se caso não acreditares na minha influência, ótimo para mim, pois aumenta a minha certeza de minha força sobre vocês.

Até breve, em suas próximas ações! Ou não?
CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE BRIÓFITAS URBANAS: UMA ABORDAGEM RESUMIDA, CONSIDRANDO A CIDADE DE SALVADOR COMO EXEMPLO.

Prof. Dr. Cid José Passos Bastos
Universidade Federal da Bahia
Instituto de Biologia

O ambiente urbano apresenta características peculiares, cuja paisagem é determinada por condições físicas, históricas e culturais (Gilbert 1991), propiciando a ocorrência de fauna e flora especializadas, com caracteres próprios resultantes de adaptações a essas condições. A paisagem urbana pode ser definida de três maneiras, segundo Gilbert (1991): (a) tecnológica, em que a paisagem natural foi substancialmente substituída por elementos artificiais; (b) parques e áreas verdes, em que os elementos bióticos podem atuar apenas sob critérios de manejo; (c) ecológica, em que os elementos bióticos podem atuar de forma natural. Nas grandes cidades, entretanto, esses refúgios naturais estão cada vez mais alterados por fatores antropogênicos (expansão urbana, por exemplo), sendo que a paisagem ecológica pode só existir quando bem afastada do ambiente urbano. Comparado com o ambiente natural, as cidades representam habitats muito jovens (Wittig 2005).
Entre as comunidades bióticas urbanas, as briófitas situam-se como importantes componentes, constituindo comunidades peculiares, representadas por espécies oportunistas capazes de tolerar concentrações relativamente elevadas de poluentes atmosféricos, bem como alterações do meio ambiente resultantes do processo de urbanização, em detrimento daquelas mais sensíveis a essas condições (Lara et al. 1991). As briófitas urbanas são, assim, úteis e eficazes na avaliação da qualidade ambiental das cidades, devido às suas características anátomo-morfológicas e fisiológicas. Entretanto, o crescimento das briófitas em monumentos e construções pode acarretar alguns problemas, principalmente de natureza estética, como descoloração e formação de camada verde-acinzentada. Mas, em alguns casos, também pode acarretar alguns danos, tais como fraca desagregação da superfície do monumento por liberação de ácidos orgânicos provenientes da respiração celular, e também pode permitir o crescimento de cianobactérias, algas e plantas vasculares, que são mais destrutivas aos monumentos e construções (Kumar & Kumar 1999).
Fudali (2000) analisou alguns aspectos da influência da urbanização sobre a brioflora, apontando algumas características, entre elas, a de que a dinâmica da brioflora se manifesta pela extinção e retração de espécies nativas e a prevalência de espécies euritópicas invasoras, além de alterações na distribuição de espécies epífitas e depauperamento do espectro ecológico (representado pela variabilidade de substratos colonizados). Essas características estão relacionadas principalmente com os diferentes biótopos encontrados no ambiente urbano. De acordo com Fudali (1994, 2000), um dos atributos do ambiente urbano é a sua alta heterogeneidade de biótopos, que diferem no grau de suas condições naturais, considerando-se os artificiais (concreto, argamassa, calçadas, telhados, etc.) e os naturais (solos, troncos de árvore viva, troncos caídos).
A brioflora urbana de Salvador apresenta relativamente amplo espectro florístico (17 famílias, sendo 12 de musgos, quatro de hepáticas e uma de antóceros), embora menos rica quando comparada com a de outras cidades do Brasil e, principalmente, da Europa. As razões para essa diferença e relativamente pobreza em espécies, pode ser devida aos seguintes fatores: (a) condições microclimáticas específicas de cada cidade - o microclima específico de cada cidade pode variar tanto em relação à posição geográfica (principalmente latitude), quanto à própria estrutura do ambiente urbano (planejamento urbano). Locais como os centros de grande circulação de veículos e com grande número de prédios altos, podem ter temperaturas mais elevadas (ilhas de calor) que as áreas mais abertas, com menor número de construções. Esse fator pode condicionar diferentes comunidades de briófitas; (b) ordenação dos espaços urbanos - uma cidade que seja bem planejada, com equilíbrio entre áreas abertas e áreas com maior número de construções, e melhor ordenamento do trânsito de veículos automotivos, pode propiciar condições mais adequadas ao desenvolvimento de certas espécies, resultando em uma brioflora mais rica; (c) idade da fundação da cidade - cidades mais antigas podem abrigar uma brioflora mais rica e diversificada do que cidades recentemente desenvolvidas; provavelmente, as cidades mais antigas tendem a ter maior número de apófitas (espécies que se tornaram mais comuns em ambientes urbanos que nos ambientes naturais) e arqueófitas (espécies que ocuparam o ambiente urbano há longo tempo, ca. 500 anos ou mais) do que as mais recentes, caracterizada por maior número de neófitas (invasoras recentes); (d) número de áreas verdes e parques florestais - cidades com maior número de áreas arborizadas e de parques (fragmentos florestais) tendem a ter  uma brioflora mais rica e diversificada em razão do maior número de substratos naturais disponíveis, favorecendo um mais amplo espectro ecológico; (e) diferenças em relação aos locais específicos de coleta - cidades cujos estudos sobre as briófitas urbanas tenham já sido iniciados há longo tempo e com maior abrangência de biótopos (centro da cidade, parques, jardins, ruas, praças, cemitérios, áreas periféricas e fragmentos florestais) possuem dados mais amplos e os inventários das espécies mais completos.
Embora seja prematuro determinar brioapófitas, sem estudos mais aprofundados do ambiente urbano, principalmente sobre o histórico florístico da região, pode-se considerar, no entanto, Bryum argenteum Broth., Bryum capillare Hedw., Frullania ericoides (Nees) Mont., Hyophila involuta (Hook.) A. Jaeger e Hyophiladelphus agrarius (Hedw.) R.H. Zander como sendo brioapófitas ou urbanícolas, uma vez que são espécies sempre referidas para ambientes antropogênicos, seja urbano, industriais ou rurais.

Literatura citada
Fudali, E. 1994. Species diversity and spatial distribution of bryophytes in urban areas - a case study of the city of Szczecin. Fragmenta Floristica et Geobotanica 39(2): 563-570.
Fudali, E. 2000. Some open questions of the bryophytes of urban areas and their response to urbanization’s impact. Perspectives in Environmental Sciences 2(1): 14-18.
Gilbert, O L. 1991. The Ecology of Urban Habitats. London: Chapman & Hall.
Kumar, R. & Kumar, A.V. 1999. Biodeterioration of Stone in Tropical Environments. An Overview. The Getts Conservation Institute. Research in Conservation.
Lara, F., Lopez, C. & Mazimpaka, V. 1991. Ecología de los briófitos urbanos de la ciudad de Segovia (España). Cryptogamie, Bryol. Lichénol. 12(4): 425-439.