sábado, 15 de novembro de 2014

O ELOGIO DO EGOÍSMO
Prof. Dr. Cid José Passos Bastos
Universidade Federal da Bahia
Instituto de Biologia

Ah! Agradeço à minha mãe, a Loucura, pela oportunidade que tive de dirigir as atitudes humanas, dividindo com ela essa supremacia sobre o gênero humano! Agradeço, também, a ela, a Loucura, por ter permitido que eu igualmente fizesse esse discurso, tal como ela fez há muito tempo atrás. Então, para vocês humanos, iniciarei o meu discurso!
Para iniciar esse discurso, lhes informo que seria demasiado enfadonho tratar de todas as minhas ações sobre vocês, seres humanos, uma vez que muitas de suas atitudes são frutos de minhas ações, muito mais do possais imaginar, desde as pequenas como as grandes atitudes! Agradecei a mim, humanos, a sua aparente supremacia sobre os outros seres da Terra! Eu assim os fiz acreditar! Mas, isso não foi bom, confortavelmente bom para o vosso atormentado espírito? Como vocês reagiriam se soubessem que não são mais do que os outros seres do planeta e acima de seus semelhantes humanos? Ah! Meus caros humanos, que enorme favor eu lhes fiz! Inimaginável!
Comecemos, então, pelo aspecto biológico que, certamente, acrediteis que nisso eu não teria razão. Vós estais enganados! Acham vocês, então, superiores aos demais seres do planeta? Pois bem! Perdoem-me por demonstrares, agora, a verdade, embora ela, a Verdade, não seja minha amiga; prefiro a Dissimulação, essa querida prima que eu prezo tanto! Já pensastes que dependes de toda uma rede de interações de todos os organismos vivos, desde os mais simples, unicelulares a subcelulares, aos mais complexos, e que sem eles vós não sobreviveríeis? Se vocês se alimentam é porque, inicialmente, um grupo de organismos transformou a energia eletromagnética em energia química, de ligação entre moléculas, e de fácil transferência para possibilitar a ocorrência de outra ligação química (vejam vocês, eu falando cientificamente bonito!). Acham, por acaso, que o dinheiro é que fabrica os alimentos? Ah, o dinheiro, grande criação minha, ao menos tive alguma participação na sua utilização. Ou talvez vocês pensem que tudo que existe é para lhes satisfazer! Quanta ingenuidade! Tudo que existe é para o bem de tudo e de todos; vós sois frutos dessa interação, e não os privilegiados! Não entendeis ainda o que é a evolução? Não conhecestes, realmente, o que aqui na Terra se chama de ecologia? Ora, pensais que o teu conhecimento parco das interações entres os seres do planeta, vivos e não vivos, já vos fazem semideuses? Minha grande amiga e irmã, a Vaidade, tem muita responsabilidade com isso. Agradeço enormemente a ela! Pois eu diria que o verdadeiro princípio ecológico é este, as quatro interações, até então conhecidas: interação nuclear forte, interação nuclear fraca, interação eletromagnética e interação gravitacional. Mas, pensais que é só isto? Isso é apenas o que vocês tiveram possibilidade de vislumbrar! Sigam a sua evolução que, um dia, em uma época bem futura, podereis compreender o significado das interações que mantém o Cosmos. Mas, ora, não fujamos do assunto desse Discurso! Vocês entenderam essa primeira parte do Discurso? Não? Se não entenderam, ótimo, porque mostra o quanto domino vocês! Que maravilha!
Passemos à análise seguinte, ainda considerando aspectos biológicos. Vamos nos reportar agora à poluição, mas apenas com o conceito restrito às vossas ações. Considerando a eliminação de resíduos, o que, de fato, ainda é inevitável em razão da constituição da matéria que lhes forma o corpo e os demais constituintes do Planeta Terra (a Lei da Entropia é implacável, nesse aspecto), qual a minha participação, afinal? Ora, reflexionemos. Vamos considerar a vida social presente. Para fabricar qualquer bem de consumo (viu, eu falei consumo, e isso é a base de tudo!), é necessário extrair matéria prima ou reciclar a que já foi transformada; pois bem, tudo isso gera resíduo e, portanto, poluição. Então, o comportamento egoístico faz com que vocês utilizem mais do que verdadeiramente seria necessário, forçando a cadeia de produção no seu início e gerando mais e mais resíduos. O aspecto financeiro tem muita responsabilidade nisso. Vejamos: o uso de combustíveis fósseis, como o petróleo, por exemplo, é fonte de enormes resíduos prejudiciais, mas também é fonte de lucro direto e indireto para muitos grupos que se acham dominante em razão do poder (poder? Ah!) financeiro. Deu para entender, caros humanos? Não? Que bom! Isso prova, mais uma vez, o meu inteiro domínio sobre vocês.
Vou falar de outro assunto, que poucos reportam como de minha responsabilidade. A fome! Vocês, humanos, acham que a fome no mundo é um problema socioeconômico? Pois estão enganados! A fome é um problema moral! Ora, como? Eu, o Egoísmo, sou o grande responsável. Vou mostrar que estou certo nessa minha afirmativa. Vou começar fazendo algumas questões: por que as Nações ainda não fizeram um grande fundo de alimentos, para serem devida e honestamente (Ah! Eis um dos grandes problemas humanos) distribuídos com os povos menos afortunados (que são muitos, por sinal)? Por que preferem as guerras e outras disputas inúteis? Caros humanos, não há escassez de alimentos e nem de recursos financeiros, há, sim, o egoísmo, ou seja, eu! Para exercer essa minha ação sobre vocês, conto com as minhas filhas queridas: a Usura, a Mesquinhez, a Impiedade e, grande filha, a Ganância! Elas são imbatíveis, não? Também conto com a minha grande amiga, a Dissimulação, que tanto me auxilia. Mas, que ingratidão, não falar aqui de duas grandes aliadas, a Mentira e a Falsidade! Minhas grandes amigas, aliadas nessa ação sobre vocês, caros humanos.
Querem mais provas? Será mesmo necessário? Acho que não. Vocês não podem ignorar esse fato: eu, o grande Egoísmo, sou o responsável por essa e tantas outras mazelas sociais. Acham que não? Ótimo, pois mais uma vez, é prova de minha ação sobre vocês.
E as doenças? Como no caso da fome, a falta de tratamento adequado e investimentos são devidos a que? Claro, a mim, o grande Egoísmo! Conto com as mesmas aliadas nesse processo. Mais uma vez pergunto: acham que não? Bem, se ainda acham que estou exagerando, ótimo, minha influência sobre vocês é realmente forte!
Caríssimos! Vou falar um pouco de outro grande problema social: a violência. Vocês pensam, acaso, que também a violência é um problema social ou socioeconômico? Quanta ingenuidade! Violência, como a fome, é um problema moral! Quem é o responsável? É claro, eu, o Egoísmo, sou o grande responsável por essa mazela. Não? Como não? Por acaso a violência só ocorre nos meios sociais menos afortunados, financeira e socialmente falando? Prestem mais atenção às coisas e acontecimentos do dia a dia; vejam quanta violência explode entre os mais ricos e mais instruídos! As Nações se digladiam, sejam as mais ricas, sejam as mais pobres! E tudo pelo poder, pelo lucro fácil e exacerbado! As pessoas usam de violência para com outras por vários motivos: antipatia, vingança, inveja, disputa, entre tantos outros motivos. E quem vocês acham que está no comando de todos esses sentimentos? Eu, o grande Egoísmo, é claro. Duvida? Ótimo, então, porque isso mostra que ainda estou no comando!
Bem que eu poderia falar de tantas outras coisas pelas quais sou o responsável, mas, isso se tornaria muito extenso e, como disse antes, talvez enfadonho. Porém, lembro-lhes de que em tudo eu estou diretamente envolvido, em tudo que é considerado como antiético, desonesto, enfim, as chamadas mazelas sociais, inseridas na política (essa então, tenho grandes ações), no esporte, no lazer, nos afazeres diários (aquelas pequenas disputas que considerais quase que inocentes e inerentes ao gênero humano – mas que pretensão!), na educação (grande campo de ação eu tenho aí), no trabalho (nossa, como eu trabalho nisso!), nas relações sociais (essa então?!), nas religiões (Ah! Como eu tenho ação nas religiões, e bem marcante!); bem, eu poderia levar todo o tempo enumerando as minhas ações, mas deixo isso para que vocês possam reflexionar. E os meus diletos produtos, como esquecê-los? São alguns deles: a prepotência, a arrogância, a maledicência...
Aqui me despeço na certeza de que estou fazendo o meu melhor, e esse discurso apenas mostrou em linhas gerais o quanto eu tenho ação sobre vocês. Podem reflexionar o quanto quiserem sobre o que lhes foi dito e, se caso não acreditares na minha influência, ótimo para mim, pois aumenta a minha certeza de minha força sobre vocês.

Até breve, em suas próximas ações! Ou não?
CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE BRIÓFITAS URBANAS: UMA ABORDAGEM RESUMIDA, CONSIDRANDO A CIDADE DE SALVADOR COMO EXEMPLO.

Prof. Dr. Cid José Passos Bastos
Universidade Federal da Bahia
Instituto de Biologia

O ambiente urbano apresenta características peculiares, cuja paisagem é determinada por condições físicas, históricas e culturais (Gilbert 1991), propiciando a ocorrência de fauna e flora especializadas, com caracteres próprios resultantes de adaptações a essas condições. A paisagem urbana pode ser definida de três maneiras, segundo Gilbert (1991): (a) tecnológica, em que a paisagem natural foi substancialmente substituída por elementos artificiais; (b) parques e áreas verdes, em que os elementos bióticos podem atuar apenas sob critérios de manejo; (c) ecológica, em que os elementos bióticos podem atuar de forma natural. Nas grandes cidades, entretanto, esses refúgios naturais estão cada vez mais alterados por fatores antropogênicos (expansão urbana, por exemplo), sendo que a paisagem ecológica pode só existir quando bem afastada do ambiente urbano. Comparado com o ambiente natural, as cidades representam habitats muito jovens (Wittig 2005).
Entre as comunidades bióticas urbanas, as briófitas situam-se como importantes componentes, constituindo comunidades peculiares, representadas por espécies oportunistas capazes de tolerar concentrações relativamente elevadas de poluentes atmosféricos, bem como alterações do meio ambiente resultantes do processo de urbanização, em detrimento daquelas mais sensíveis a essas condições (Lara et al. 1991). As briófitas urbanas são, assim, úteis e eficazes na avaliação da qualidade ambiental das cidades, devido às suas características anátomo-morfológicas e fisiológicas. Entretanto, o crescimento das briófitas em monumentos e construções pode acarretar alguns problemas, principalmente de natureza estética, como descoloração e formação de camada verde-acinzentada. Mas, em alguns casos, também pode acarretar alguns danos, tais como fraca desagregação da superfície do monumento por liberação de ácidos orgânicos provenientes da respiração celular, e também pode permitir o crescimento de cianobactérias, algas e plantas vasculares, que são mais destrutivas aos monumentos e construções (Kumar & Kumar 1999).
Fudali (2000) analisou alguns aspectos da influência da urbanização sobre a brioflora, apontando algumas características, entre elas, a de que a dinâmica da brioflora se manifesta pela extinção e retração de espécies nativas e a prevalência de espécies euritópicas invasoras, além de alterações na distribuição de espécies epífitas e depauperamento do espectro ecológico (representado pela variabilidade de substratos colonizados). Essas características estão relacionadas principalmente com os diferentes biótopos encontrados no ambiente urbano. De acordo com Fudali (1994, 2000), um dos atributos do ambiente urbano é a sua alta heterogeneidade de biótopos, que diferem no grau de suas condições naturais, considerando-se os artificiais (concreto, argamassa, calçadas, telhados, etc.) e os naturais (solos, troncos de árvore viva, troncos caídos).
A brioflora urbana de Salvador apresenta relativamente amplo espectro florístico (17 famílias, sendo 12 de musgos, quatro de hepáticas e uma de antóceros), embora menos rica quando comparada com a de outras cidades do Brasil e, principalmente, da Europa. As razões para essa diferença e relativamente pobreza em espécies, pode ser devida aos seguintes fatores: (a) condições microclimáticas específicas de cada cidade - o microclima específico de cada cidade pode variar tanto em relação à posição geográfica (principalmente latitude), quanto à própria estrutura do ambiente urbano (planejamento urbano). Locais como os centros de grande circulação de veículos e com grande número de prédios altos, podem ter temperaturas mais elevadas (ilhas de calor) que as áreas mais abertas, com menor número de construções. Esse fator pode condicionar diferentes comunidades de briófitas; (b) ordenação dos espaços urbanos - uma cidade que seja bem planejada, com equilíbrio entre áreas abertas e áreas com maior número de construções, e melhor ordenamento do trânsito de veículos automotivos, pode propiciar condições mais adequadas ao desenvolvimento de certas espécies, resultando em uma brioflora mais rica; (c) idade da fundação da cidade - cidades mais antigas podem abrigar uma brioflora mais rica e diversificada do que cidades recentemente desenvolvidas; provavelmente, as cidades mais antigas tendem a ter maior número de apófitas (espécies que se tornaram mais comuns em ambientes urbanos que nos ambientes naturais) e arqueófitas (espécies que ocuparam o ambiente urbano há longo tempo, ca. 500 anos ou mais) do que as mais recentes, caracterizada por maior número de neófitas (invasoras recentes); (d) número de áreas verdes e parques florestais - cidades com maior número de áreas arborizadas e de parques (fragmentos florestais) tendem a ter  uma brioflora mais rica e diversificada em razão do maior número de substratos naturais disponíveis, favorecendo um mais amplo espectro ecológico; (e) diferenças em relação aos locais específicos de coleta - cidades cujos estudos sobre as briófitas urbanas tenham já sido iniciados há longo tempo e com maior abrangência de biótopos (centro da cidade, parques, jardins, ruas, praças, cemitérios, áreas periféricas e fragmentos florestais) possuem dados mais amplos e os inventários das espécies mais completos.
Embora seja prematuro determinar brioapófitas, sem estudos mais aprofundados do ambiente urbano, principalmente sobre o histórico florístico da região, pode-se considerar, no entanto, Bryum argenteum Broth., Bryum capillare Hedw., Frullania ericoides (Nees) Mont., Hyophila involuta (Hook.) A. Jaeger e Hyophiladelphus agrarius (Hedw.) R.H. Zander como sendo brioapófitas ou urbanícolas, uma vez que são espécies sempre referidas para ambientes antropogênicos, seja urbano, industriais ou rurais.

Literatura citada
Fudali, E. 1994. Species diversity and spatial distribution of bryophytes in urban areas - a case study of the city of Szczecin. Fragmenta Floristica et Geobotanica 39(2): 563-570.
Fudali, E. 2000. Some open questions of the bryophytes of urban areas and their response to urbanization’s impact. Perspectives in Environmental Sciences 2(1): 14-18.
Gilbert, O L. 1991. The Ecology of Urban Habitats. London: Chapman & Hall.
Kumar, R. & Kumar, A.V. 1999. Biodeterioration of Stone in Tropical Environments. An Overview. The Getts Conservation Institute. Research in Conservation.
Lara, F., Lopez, C. & Mazimpaka, V. 1991. Ecología de los briófitos urbanos de la ciudad de Segovia (España). Cryptogamie, Bryol. Lichénol. 12(4): 425-439.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

SÉRIE TEXTOS DIDÁTICOS – ANO 2014 (edição revisada)

O PARADOXO DA VIDA DAS BRIÓFITAS

Cid José Passos Bastos
Professor Associado
Instituto de Biologia
Universidade Federal da Bahia


                Briófitas são plantas de pequenas dimensões em altura, se comparadas com a maioria das traqueófitas, e que não apresentam elementos xilemáticos e nem floemáticos, com dispersão através de esporos. Diferentemente das outras embriófitas ou arquegoniadas (também chamadas de plantas terrestres), o seu corpo vegetativo está representado pelo gametófito, geração haploide responsável pela formação dos gametas. O termo “Briófita” é de origem grega (Bryo = musgo; phyta = planta), significando “plantas que se intumescem com a hidratação” (Vanderpoorten & Goffinet 2009), muito provavelmente sendo este o significado de “musgo”, considerando a etimologia da palavra. Isto porque, devido à ausência de um sistema de absorção (raízes) e de condução de água como o xilema e floema das traqueófitas, água e nutrientes são absorvidos diretamente através dos tecidos do gametófito, sendo, portanto, a condução externa de água (ectohídrica) por capilaridade o principal mecanismo de absorção de água a partir do ambiente. Embora muitas briófitas apresentem tecido de condução de água (hidróides) e de fotossintatos (leptóides), estes não são anatomicamente semelhantes ao sistema vascular (xilema e floema) das traqueófitas.
                O ciclo reprodutivo das briófitas está representado por uma alternância de fases heteromorfas, em que a fase haploide produtora de gametas (gametófito) e dominante do ciclo, alterna com a fase diploide produtora de meiósporos (esporófito), a qual é efêmera e sem qualquer função vegetativa, sendo total ou parcialmente dependente do gametófito, uma vez que cresce e permanece fixo a este. O paradoxo da vida das briófitas reside no fato de que, embora terrestres, o gametófito é a fase dominante e vegetativa no ciclo de vida dessas plantas.
                A conquista do ambiente terrestre resultou, para os vegetais, em algumas adaptações: proteção eficiente contra a incidência direta da radiação solar, conseguida através da síntese de compostos fenólicos, mecanismos para evitar a dessecação e promover melhor economia hídrica, obtida com o surgimento da cutícula e de um tecido condutor eficiente, e resistência mecânica adquirida com a síntese de lignina (Tierra et al. 1989). A maioria dessas características adaptativas ocorreu no esporófito, o qual representa a fase trófica e dominante do ciclo de vida das traqueófitas. As briófitas, cuja fase trófica e dominante é o gametófito, apesar de colonizarem o ambiente terrestre, não desenvolveram tecidos mecânicos lignificados e nem elementos do xilema e floema. Contudo, muitas outras adaptações permitiram a essas plantas colonizarem com sucesso o ambiente terrestre.
                A sobrevivência de qualquer ser vivo está condicionada à sua capacidade de reprodução, e essa é a questão crucial de toda essa discussão. Se analisarmos o processo reprodutivo dos vegetais, desde algas até angiospermas, verificaremos que ele ocorre através de três ciclos básicos: haplôntico, em que o trofonte (fase adulta e dominante do ciclo), é o gametófito (haploide), sendo que a fase diploide resume-se ao zigoto, o qual sofre meiose (meiose zigótica) produzindo meiósporos que formarão novos gametófitos; diplôntico, em que o gametófito dominante é diploide e, consequentemente, o zigoto formado não sofre meiose, sendo a fase haploide restrita aos gametas (meiose gamética); e o ciclo haplodiplôntico, o qual apresenta alternância de duas fases: a fase haploide, representada pelo gametófito, e a fase diploide, representada pelo esporófito, o qual foi formado pelo desenvolvimento do zigoto através de mitoses e é responsável pela formação dos meiósporos; a meiose, portanto, ocorrerá na formação dos esporos (meiose espórica). Na presente análise, nos interessa apenas o ciclo haplodiplôntico, por ser aquele que ocorre nas embriófitas.
                A alternância de gerações (ou de fases), portanto, implica na existência de duas fases distintas na vida da planta. Uma haploide, que é o gametófito, produtora de gametas através de mitoses, podendo ser monoico ou dioico. A outra fase, o esporófito diploide, resulta do desenvolvimento do zigoto através de divisões mitóticas, originando um embrião que se desenvolverá no esporófito. O esporófito produzirá esporos através de meiose e os meiósporos assim formados serão dispersos no ambiente e formarão novos gametófitos haploides. As duas gerações, gametófito e esporófito, podem ser morfologicamente idênticas e, nesse caso, temos o ciclo haplodiplôntico isomorfo, ou podem ser distintas morfologicamente, nesse caso temos o ciclo haplodiplôntico heteromorfo. A relação de dominância no ciclo de vida entre as duas fases também pode variar, assim como o modo de vida: o gametófito pode crescer sobre o esporófito ou este pode crescer sobre o gametófito. Comparando-se com o ciclo haplôntico, verificaremos que o zigoto não sofre meiose, mas mitoses, formando uma fase diploide multicelular, o esporófito; por ser multicelular, o esporófito irá formar o esporângio (estrutura multicelular específica que formará o tecido esporogênico), em que as várias células esporogênicas formadas sofrerão meiose para produzir meiósporos, aumentando, assim, o número de esporos que são formados por esporófito. Note que no ciclo haplôntico, apenas o zigoto (uma única célula) irá se converter em esporângio, sofrendo meiose e produzindo apenas quatro meiósporos.
                Outro aspecto necessário ao prosseguimento dessa análise é a união gamética. Esta pode efetuar-se de três modos básicos: por isogamia, em que os gametas são idênticos; por anisogamia, em que os gametas são diferentes, na forma, tamanho ou movimento; e por oogamia, tipo de anisogamia especializada em que, obrigatoriamente, o gameta masculino é pequeno (podendo ser móvel ou não) e o gameta feminino é grande e sempre imóvel (quando se refere aqui aos termos “móvel” ou “imóvel”, reporta-se à presença ou ausência de flagelos, respectivamente). A união dos gametas, nesse caso, pode ocorrer no ambiente, ou seja, externamente ao gametângio feminino (oogônio), ou poderá ocorrer no interior do próprio gametângio feminino (oogoniogamia). No caso das embriófitas a união gamética é oogâmica, ocorrendo no interior, não do oogônio, mas do arquegônio (nesse caso, seria mais apropriadamente referida como arquegoniogamia). O arquegônio é um gametângio que só surgiu com a evolução das embriófitas e diferentemente do oogônio, no qual todas as células originarão gametas femininos (oosferas), a maioria das células retém seu caráter vegetativo, formando um córtex que protege o único gameta feminino funcional (assim, há apenas a formação de uma única oosfera). A condição arquegoniada foi uma clara adaptação ao ambiente terrestre, protegendo a oosfera (e o zigoto posteriormente formado), contra a perda de água. Modificação semelhante também ocorreu com o gametângio masculino (o anterídio), em que parte das células manteve seu caráter vegetativo, formando um córtex que envolve e protege os anterozoides. Nas briófitas, licófitas e monilófitas o gameta masculino (anterozoide) precisa se deslocar em meio líquido para alcançar e penetrar o arquegônio e, assim, se fusionar com a oosfera para formar o zigoto, o qual se desenvolverá, por mitoses, no embrião, cujo crescimento e desenvolvimento resultarão no esporófito. A independência completa da água para a ocorrência da união gamética só será alcançada nas espermatófitas. Foge ao escopo desse ensaio a análise completa de todo o processo reprodutivo sexuado das embriófitas.
                A independência da água para a realização do processo sexual nas embriófitas tornou-se um fato crucial para o estabelecimento desses organismos, uma vez que a água é um fator limitante no ambiente aéreo (emerso). Gametas e seus respectivos órgãos formadores (gametângios) são bastante sensíveis à perda de água. Além disso, no ambiente terrestre, o fato de que os anterozoides necessitam de água para alcançar a oosfera, representa certa desvantagem e um grande risco de que a fecundação não ocorra, o que, de certo modo, poderia limitar a ocupação dos habitats disponíveis.  Assim, desde as licófitas, o gametófito tornou-se uma fase efêmera da vida da planta e o esporófito, ao contrário, alcançou extraordinário nível de complexidade morfológica e funcional, terminando por alojar e proteger o gametófito, condição alcançada nas espermatófitas, em que o gametófito está representado apenas pelo tubo polínico (gametófito masculino) e pelo saco embrionário (gametófito feminino).
                O esporófito é a geração produtora de esporos, e esporos são unidades de dispersão, de resistência (em razão da parede celular espessa), mais aptos a suportar as condições relativamente secas do ambiente terrestre, quando comparados aos gametas. Além disso, o esporófito, por ser diploide, apresenta maior potencial para a variabilidade genética e consequente flexibilidade evolutiva, se comparado ao gametófito haploide (Graham 1985). Desse modo, é compreensível que o esporófito tenha alcançado independência e maior nível de complexidade morfológica e funcional, desenvolvendo tecidos lignificados para sustentação, raiz para melhor absorção, caule para melhor condução e folhas para assimilação. As traqueófitas são, portanto, esporófitos perfeitamente adaptados à vida no ambiente terrestre. Outro passo evolutivo significativo na conquista do ambiente terrestre ocorrido nas traqueófitas foi o surgimento da semente (unidade de dispersão que protege e nutre o embrião), evento que ocorreu nas espermatófitas.
                Nesse ponto começa o paradoxo da vida das briófitas. Conquistaram o ambiente terrestre, porém, o seu corpo vegetativo está representado pelo gametófito. Este não pode alcançar grandes dimensões em altura, uma vez que necessita viver mais próximo do substrato pela necessidade de água para que ocorra a fecundação, além do fato de não formarem sistema caulinar e nem sistema radicular. A questão é que gametófito produz gametas livres (no caso das briófitas, licófitas e monilófitas), e gametas são células que não podem ter paredes espessas, pois são células de fusão. Dessa forma, o perigo de desidratação é iminente e, dessa forma, não podem sobreviver por muito tempo no ambiente aéreo. Além disso, nas briófitas, licófitas e monilófitas, os gametas masculinos têm que ser liberados e necessitam se deslocar em meio aquoso para alcançar o arquegônio. Existem algumas evidências que mostram o transporte de anterozoides por colêmbolos e ácaros (Cronberg 2012), contudo, isso não é uma regra. Portanto, devemos imaginar que, aparentemente, o gametófito não é uma geração apta a permanecer no ambiente terrestre. O esporófito, ao contrário, produz esporos, cujas paredes são espessas, já que são células de dispersão e não de fusão; paredes espessas conferem a estas células maior proteção contra a perda de água e, dessa forma, podem permanecer no ambiente por longo tempo. Além disso, esporófitos, por produzirem apenas elementos de dispersão com paredes espessas, podem alcançar grandes dimensões em altura, o que foi conseguido à custa do desenvolvimento de tecidos lignificados. O gametófito, no entanto, por produzirem gametas livres, tem que estar próximo ao substrato para facilitar o deslocamento dos anterozoides em meio aquoso, o que, de certa forma, impõe restrições ao tamanho em altura que podem alcançar. A impossibilidade de alcançar altura elevada, por outro lado, não favoreceu o desenvolvimento de tecidos lignificados. Também, o fato de as trocas gasosas e de água e nutrientes ocorrerem através da superfície do corpo, limitou, por sua vez, o desenvolvimento de uma cutícula espessa, embora isso não tenha impedido que as briófitas colonizassem ambientes xéricos.
                Contudo, observamos que as briófitas, apesar dessas aparentes limitações, estão perfeitamente adaptadas ao ambiente terrestre, ocorrendo em ambientes higrófilos, mésicos e xéricos. Para isso, desenvolveram diversos modos de vida e de formas de crescimento, bem como mecanismos eficientes de resistência à perda de água e proteção contra a radiação solar, além de desenvolveram estratégias reprodutivas que lhes permitiram a colonização nos mais variados habitats. Quando as condições não são favoráveis à reprodução sexuada, reproduzem-se por multiplicação vegetativa, por vários mecanismos. Muitas vezes, utilizam ambas as estratégias, reprodução sexuada e multiplicação vegetativa, ao mesmo tempo. Forçoso admitir-se que em ambientes úmidos as briófitas desenvolvem-se com maior exuberância. Devido à sua pequena dimensão em altura, as briófitas podem colonizar microhabitats diversos, muitas vezes favorecendo o crescimento de outros organismos que nelas encontram abrigo, proteção, umidade e alimento.
                As briófitas como organismos, nos oferecem exemplos para as nossas reflexões e para a reavaliação de muitos conceitos e interpretações, muitas vezes simplistas e reducionistas, a respeito dos fenômenos da Natureza.

LITERATURA CITADA
CRONGERG, N. 2012. Animal-mediated fertilization in bryophytes ‒ parallel or precursor to insect pollination in angiosperms? Lindbergia 35: 76-85.
GRAHAM, L.E. 1985. The origin of the life cycle of land plants. American Scientist 73: 178-186.
TIERRA, A.E.S., MOYA, A.F. & PASTRANA, A.M.E. 1989. El origen de los Cormófitos. Transmigracion y colonizacion terrestre. Granada: Servicio de Publicaciones de la Uned de Melila.

VANDERPOORTEN, A. & GOFFINET, B. 2009. Introduction to Bryophytes. Cambridge: Cambridge University Press.