domingo, 22 de setembro de 2013


MEMÓRIAS DE UM HOMEM COMUM - PARTE IV

CAPÍTULO 4

Cid José Passos Bastos

Comecei, então, a minha vida na Universidade em 1979, no Curso de Biologia da Universidade Federal da Bahia. Foi tudo para mim; estar estudando o que eu gostava, para ser o profissional que eu queria e que tinha vocação. Durante o primeiro ano do curso conheci alguns colegas que, juntos, resolvemos que estudar a célula seria o passo inicial para o entendimento de vários processos fisiológicos e metabólicos; assim, nasceu um grupo, e nos encontrávamos sempre para estudar a célula. Por isso, comprei muitos livros sobre célula. Mas, não estudava só isso. Estudava muita coisa, programei muitas coletas (isso durante quase todo o curso), especialmente de organismos marinhos (na época, não havia problemas com o órgão ambiental, para se coletar). Mas, não ficou só nisso. Nesse período, ocorreu a regulamentação da Profissão de Biólogo, e conseguimos que a Professora Terezinha Guzzo, na época Presidente da Associação Baiana de Biologia – ABAB fizesse uma palestra sobre a lei recentemente regulamentada (foi regulamentada no dia 3 de setembro de 1979); a palestra ocorreu no final da tarde, no Anfiteatro 132 (hoje sala 02) do Instituto de Biologia. A Professora Terezinha Guzzo, embora fosse Bióloga, era do Instituto de Geociências.
No segundo ano do curso, comecei a estagiar em um laboratório do Instituto de Química, no Projeto Estudos Ecológicos do Recôncavo, o qual tinha muita atividade de campo (coletas sistematizadas, realizadas na Baía de Todos os Santos). O objetivo era estudar os efeitos de metais pesados, principalmente mercúrio, nas populações de moluscos bivalves; minha orientadora nesse período foi a Professora Marlene Campos Peso de Aguiar. Foi muito bom e importante esse período para minha formação. Participei desde o 2º Seminário Estudantil de Pesquisa até a minha formatura, e um semestre depois dela, mas não apenas nesse Projeto. Quero relatar aqui alguns fatos, mas não todos os acontecimentos desse período de minha vida.
Após sair desse Projeto, fui ser monitor da Disciplina Botânica V, sob a orientação da Professora Dayse Vasques Martins; esse fato determinou a minha vida profissional, como pesquisador. Foi nessa fase que comecei a estudar briófitas. Inicialmente, logo que fui aprovado na seleção de monitor, a Professora Dayse, que era especialista em Desmidiaceae, colocou para mim uma questão: queria que eu desenvolvesse no Laboratório que ela coordenava, uma pesquisa sobre o grupo de organismo de meu interesse. Assim, comecei com algas marinhas bentônicas, mas, quando conheci as briófitas, nunca mais me afastei delas. E foi assim que comecei a estudar essas pequenas e fascinantes plantas. Pouco depois, comecei a organizar a coleção de briófitas do Herbário Alexandre Leal Costa (ALCB), por solicitação da Professora Lectícia, à época curadora do Herbário.
Durante o período do curso de Biologia, estive envolvido com questões ambientais. Em razão de um episódio noticiado pela televisão sobre o Parque Zoobotânico Getúlio Vargas (onde fica o Zoológico de Salvador), resolvi reunir alguns colegas interessados para fazer uma visita ao Parque para observar a situação de preservação do local e as condições do Zoológico de Salvador. Fiz a chamada para o encontro em um cartaz, com a frase: Precisamos formar um mutirão ecológico para verificar as condições ambientais do Parque (foi mais ou menos assim); dessa forma foi criado o Grupo Mutirão Ecológico. Denunciamos as condições impróprias que viviam os animais do zoológico em uma reportagem de uma página no Jornal da Bahia, e fizemos várias atuações na área de educação ambiental, inclusive com palestras nas Escolas Estaduais, aproveitando um convênio do IBDF (à época, era IBDF, depois passou a ser IBAMA) com a Secretaria de Educação do Estado da Bahia. Tínhamos muitas atividades; participamos da Folha Ambiental, um pequeno informativo ambientalista criado pelo grupo Gérmen, de Arquitetura, e pelo GAMBA. Também realizamos a primeira Semana do Meio Ambiente do Instituto de Biologia, com participação de palestrantes de fora da Instituição e, inclusive, da Dra. Neomy Tomita, de São Paulo, na época Presidente da Associação Paulista de Biologia, uma das associações que mais lutou para a regulamentação da Profissão de Biólogo. Promovemos, também, um Minicurso sobre Corais, ministrado pela Professora Zelinda Margarida Leão.  Já próximo ao final do curso, por desgaste natural, o grupo encerrou as suas atividades. Foi um período muito interessante e importante.
Alguns fatos pitorescos aconteceram durante o curso; um deles, que recordo bem, foi o incêndio no Instituto de Química, quando eu ainda estagiava lá. Foi um incêndio no almoxarifado, onde eram guardadas muitas substâncias químicas; ao chegar para o estágio, encontrei já a situação estabelecida e acabei auxiliando na retirada das diversas substâncias do local, após as chamas terem sido debeladas. Sobre esse acontecimento, escrevi uma crônica, cujo título era: Água não, pó químico!
Durante o curso de graduação em Biologia, fiz muitas coisas, estudei muito, comprei muitos livros, fiz muitas coletas, viagens com o Mutirão Ecológico, inclusive para o Monte Pascoal. Foi muito bom e marcante esse período. Ocorreram fatos desagradáveis, dificuldades, que prefiro não comentar nessas curtas memórias.
Foram muito importantes, também, nessa época, os mergulhos livres que fiz na Barra e em Itapuã, com o meu amigo e colega de curso, Marco Aurélio. Nós nos divertíamos  bastante nesses mergulhos.
Após a minha formatura, sem solenidade, continuei como estagiário do Laboratório da Professora Dayse, estudando as briófitas, cujos estudos resultaram no meu primeiro artigo científico, sobre a ocorrência de espécies de antóceros em Salvador. Fiz um curto estágio no Instituto de Botânica de São Paulo, com orientação da Dra. Olga Yano.  Depois, por problemas pessoais que prefiro não relatar, tive que me afastar por um período de mais de dois anos. Nesse período em que eu estive afastado, a Professora Dayse se aposentou. Retornei no ano de 1990, estagiando no Herbário Alexandre Leal Costa, com orientação da Professora Lectícia Scardino Scott Faria, então curadora do Herbário. Foi um período importante, em que fiz muitas coletas de briófitas, que resultaram em duas publicações.
Antes e durante essa fase, fui Professor de ensino médio em Camaçari, e no ano de 1990, fui aprovado em concurso para Professor no Estado da Bahia, sendo lotado no Colégio da Polícia Militar.
No ano de 1992, fiz e fui aprovado no Concurso Público para Docente de Ensino Superior, do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia, e fui nomeado em setembro de 1993, como Professor Auxiliar, lotado no Departamento de Botânica do Instituto de Biologia. Assim, consegui meu primeiro objetivo. Após solicitar Dedicação Exclusiva, requeri exoneração do cargo de Professor de ensino médio do Colégio da Polícia Militar. Depois, fiz Mestrado e Doutorado na Universidade de São Paulo e, até hoje, prossigo com meus estudos sobre as briófitas. Atualmente, sou Professor Associado do Instituto de Biologia – UFBA.
Com esse relato, encerro aqui minhas breves memórias, importantes, ao menos para mim.

FIM

sábado, 21 de setembro de 2013


MEMÓRIAS DE UM HOMEM COMUM - PARTE III

CAPÍTULO 3

Cid José Passos Bastos

Pois é, fui reprovado, perdi a bolsa de estudos e tive que procurar uma escola pública para estudar. Nessa época, já morava no bairro de Itapagipe, na Ribeira, em uma rua no Largo do Papagaio, precisamente na Rua Antônio Moniz. Até a 2ª Série Ginasial, ainda no Salesiano, morava no IAPI, na Rua Conde de Porto Alegre, junto ao Edifício São Marcelo. Agora, era morador da Ribeira, bairro que sinto saudades.
Após muito procurar, acabei achando vaga em um Colégio situado na Ribeira mesmo, o Colégio Estadual Presidente Costa e Silva. Lembro-me do primeiro dia de aula nesse Colégio; era um dia de chuva (no mês de março era costume chover muito em Salvador, naquela época), e fiquei impressionado com as condições da escola, muito diferente do que conhecia no Salesiano: paredes sujas, com muitas coisas escritas, cadeiras não muito boas (as chamadas “carteiras”), locais alagados nos corredores de acesso às salas. Estranhei bastante essas condições. Nessa época, a reforma do ensino já se iniciara e, assim, comecei nessa escola cursando a 7ª Série do 1º Grau. Fiquei em uma turma que, logo no meio do ano, foi dividida, dispersando-se alguns alunos indisciplinados para outras turmas, ficando apenas alguns deles. Isso também eu achei estranho.
Nessa escola tive desempenho acima do normal, não só porque vinha de uma escola como o Salesiano, mas também porque, após o trauma de ter perdido o ano, resolvi, após muita reflexão, estudar de verdade, ser realmente um ótimo aluno, não só no comportamento. Contudo, era muito estimado pelos colegas, porque nunca fui egoísta, sempre ajudei aos meus colegas, sem qualquer outro interesse. Foram, também, bons tempos esses. Conheci muitos bons colegas, que se tornaram meus amigos, como Cesar Roberto, Cláudio Dantas, Armando, Kalil, Aída Silva, entre outros. Entre esses, destaco o meu grande amigo Alcides da Silva Paranhos, um amigo de verdade. Essa turma permaneceu até depois de concluirmos o 2º Grau.
Uma das coisas que recordo dessa época, foi a minha participação (forçada, é claro), no desfile de 7 de setembro. Também recordo das aulas de Educação Física, que eram muito boas.
Essa época foi muito marcante para mim, os tempos da Ribeira. Gostava muito de nadar (nunca nadei em clube, apenas no mar) e nadava quase todo o tempo em que ia à praia, na Ribeira. Como o meu pai na juventude havia atravessado da Ribeira (praia da Penha) para Plataforma nadando, também quis fazer a mesma coisa; algumas vezes, assim, também atravessei nadando o trecho da praia da Penha à Plataforma e vice-versa (atravessava de volta assim que chegava à Plataforma). Nessa época, também, tinha a mania de colecionar coisas, e uma dessas coisas era o esqueleto calcário de um tipo de equinodermo, um ouriço discoide, chamado popularmente de “bolacha do mar”. Cheguei a ter uma caixa grande cheia desses esqueletos. Gostava muito de andar observando os animais marinhos, quando a maré estava baixa.
Essa época da Ribeira foi muito pitoresca. Resolvi, após muita reflexão, viver uma vida relativamente isolada, para pensar sobre a vida, o Universo, a sociedade humana. Esse isolamento (só tinha como amigos os colegas da Escola) acabou ocasionando alguns aborrecimentos para mim, que não tiveram tanta influência depois. O fato é que algumas pessoas não aceitam alguém fora dos padrões sociais normais. Mas, isso foi importante para mim. Foi nessa época que comecei a escrever, ensaios (hoje eu sei que eram ensaios) sobre diversos temas humanos, sociais, reflexões e crônicas. O meu primeiro escrito foi sobre o mar, que eu gostava muito, tanto que comecei a colecionar a publicação “A Enciclopédia do Mar” que, por razões financeiras de minha família, não foi possível concluir. O segundo foi sobre mim mesmo. Os demais, foram muitos, versaram sobre diversas coisas, alguns sobre mim mesmo.
Além de escrever, gostava muito de Química, estudava bastante e comprava material de vidraria, além de alguns reagentes, montando um pequeno laboratório em casa, em que fazia algumas reações químicas. Muito interessante essa fase, que durou até os primeiros anos do Curso de Graduação em Ciências Biológicas, na UFBA.
Nesse tempo no bairro de Itapagipe, na Ribeira, era a década dos anos 1970 (quando sai do Salesiano e comecei a estudar no Colégio Costa e Silva já era o ano de 1974). Vi o Brasil perder aquela Copa e disputar o 3º lugar com a Polônia e perder.
Foi um período também que eu lia muito, especialmente livros de filosofia, que foram escritos por grandes filósofos do iluminismo, tais como Voltaire, Thomas Morus, Erasmo de Roterdã, entre outros. Frequentemente ia ao Campo Grande e lá sentava em um daqueles bancos para fazer essas leituras. Também lia alguns bons livros de autores brasileiros, sendo Graciliano Ramos o meu autor predileto (o que mais gostei foi o livro Vidas Secas).
No ano de 1978 conclui o 2º Grau e em janeiro de 1979 fiz vestibular para o Curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal da Bahia. Fiquei sabendo que fui aprovado no vestibular no interior de um ônibus, quando ia para a casa de uma irmã minha, que morava no Engenho Velho de Brotas, nessa época; como fiquei sabendo? Vi no jornal antes de subir ao ônibus e, por sorte minha, dentro do ônibus uma senhora estava com o jornal olhando exatamente a lista dos aprovados... Não tive dúvidas, pedi à senhora para olhar a lista, e lá estava o meu nome. Ao chegar à casa de minha irmã, esta já sabia, pois havia ouvido no rádio a lista dos aprovados. E assim começou minha jornada Universitária, no Curso que eu queria e que tinha vocação. Mas, isso é o começo de outra história.

FIM DO CAPÍTULO 3

MEMÓRIAS DE UM HOMEM COMUM

Cid José Passos Bastos

CAPÍTULO 2

Minha vida acadêmica começou (como é normal, ao menos, deveria ser para todos), na mais tenra infância, e do jeito que deve ter começado para a boa parte das crianças pobres daquela época (anos 1960): em uma escolinha informal, cuja Professora (eram muito boas Professoras, é bom que se diga) foi formada no Curso Normal do Instituto Central de Educação Isaías Alves – ICEIA. Essa Professora, muito bem formada, como eram todas àquela época, chamava-se Beatriz, e era amiga de minha irmã, também formada Professora Primária na mesma Escola. Não lembro qual a minha idade àquela época, talvez 6 ou 7 anos, não sei. Também não sei quanto tempo fiquei naquela escola, aprendendo a ler, escrever e fazer as primeiras e básicas operações da aritmética; na verdade, conhecer os números. Mas, lembro-me bem que no primeiro dia em que fui a essa escola, na garupa da bicicleta de meu irmão, chorei bastante ao chegar lá e verificar que iria ficar sozinho naquele lugar estranho e cheio de outras crianças. Não recordo de como foi o meu andamento naquela escola.
Passada essa fase, cuja duração eu não lembro, minha mãe efetuou minha matrícula no Colégio Liceu Salesiano do Salvador, colégio de Padres em que, naquela época, só estudavam meninos. Fui matriculado no Curso Primário do turno vespertino, porque era gratuito, não se pagava nenhuma mensalidade ou matrícula; o turno matutino era pago. Eu era extremamente introvertido, tímido, como se costuma falar; pouco conversava e tinha um comportamento exemplar. Tive um bom desempenho escolar. Lembro-me de alguns fatos, poucos; por exemplo, que tive que cursar o 1º ano A e o 1º ano B antes de passar para o 2º ano Primário. Lembro-me também que a Vice-Diretora era uma mulher baixinha, mas bastante dura, que todos respeitavam (não recordo o seu nome), e que o nome de minha Professora do 3º e 4º anos era Odail Figueiredo. Recordo-me, também, que fazia muitos ditados de palavras, ditados de texto e composição, além das sabatinas e da terrível “Tabuada”. Isso foi muito útil para mim, ao menos os ditados e a composição.
Ao final do 4º ano Primário, por ótimo comportamento (eu era muito disciplinado) e bom andamento nos estudos, fui submetido a um “psicoteste”, pois estava concorrendo a uma bolsa dada pelo Colégio para estudar no turno matutino, que era pago. Fiz o teste, não logrando aprovação de imediato, pois, como fui informado pelo Padre responsável, errei os mais fáceis e acertei os mais difíceis; em vista disso, fiz novamente o teste e, desta vez, consegui aprovação e ganhei a bolsa. Assim, iniciei o 5º ano Primário no turno matutino. Não recordo de muita coisa, ou melhor, de nada significativo desse período, exceto, o final e de alguns fatos a ele relacionados. Para passar para a 1ª Série ginasial, logrando aprovação, é claro, teria que fazer uma “formatura”, cuja festa tinha que dançar valsa! Assim, quase todas as tardes tinha que ir ao Colégio com uma menina para ensaiar a dança. A minha companheira de dança foi uma vizinha, filha da madrinha de minha irmã mais velha. Essa menina tinha um nome bastante pitoresco: Aidéia, conhecida como “Deinha”. Pois bem, treinamos e até que chegou o grande dia: a festa de formatura. Tenho algumas fotografias desse evento, inclusive dançando valsa, além de outras, como recebendo o Diploma das mãos do Sr. Washington Luiz da Trindade, pai de um colega, Mario Borba da Trindade.
Não recordo de muita coisa. Mas, algo marcou bastante, nesse ano que iniciei o 5° ano Primário: a chegada do Homem à Lua, em junho de 1969, a qual assisti pela Televisão. Foi muito interessante mesmo.
Tenho algumas outras lembranças. A começar pelo Padre encarregado de manter a disciplina, o Padre Luiz Marinho Falcão, que todos respeitavam. Sempre tive comportamento disciplinar exemplar, embora não gostasse de estudar matemática, principalmente. Mas, nas outras matérias, nunca tive problema: gostava muito de História, Geografia, Educação Moral e Cívica e, principalmente, Ciências; na 1ª Série ginasial, um livro praticamente determinou a minha vocação: O Caminho do Cientista. Incrivelmente, agora aos 55 anos, consegui achar, por mero acaso, um exemplar desse livro! Da mesma forma, o livro de Ciências da 3ª Série também provocou um grande estímulo para gostar de Ciências. A essa época, eu já queria ser um cientista, o que, realmente, acabei conseguindo.  O problema sempre foi matemática; eu lembro que durante as aulas de matemática, ficava um pouco disperso, olhando para a paisagem externa da sala de aula, imaginando coisas e acontecimentos e, consequentemente, não conseguia entender certos assuntos como deveria. Isso me custou caro, ao final. No mais, tudo ia normal, só que aconteceu um evento que a todos causou grande surpresa: fui posto para fora da sala de aula! Mas, não por indisciplina; é que eu havia esquecido o livro de Francês (tive aula de Francês audiovisual na 1ª e 2ª Séries) e, como todos os outros colegas que também esqueceram, fui “convidado” a sair da sala. Como acontecia com todos que passavam por isso, fui aconselhado pelos mais “experientes” no assunto, a ir para o campo de futebol do Colégio, objetivando não ser visto pelo Padre Marinho.
Tenho algumas outras boas recordações do Liceu Salesiano: a rádio interna do Colégio, dirigida pelos alunos do Curso Científico, a gincana (Gincana Paleteira do Salesiano, assim chamada porque não podia se usar veículo, tudo tinha que ser a pé, na paleta), as Olimpíadas internas, o campeonato de futebol (que eu não participava), os jogos de ping-pong (que eu não jogava) dos intervalos (recreio, como era chamado) e do Conjunto Musical (atualmente chamado de Banda) formado pelos alunos do Científico; mas, tinha algumas outras coisas que achava chato, como participar da Missa todas as primeiras sextas-feiras do mês.
Algo que tenho uma grata lembrança desse período. Sempre gostei de ler e, sempre que podia, ou quando chegava atrasado à aula (não era permitido ao aluno chegar atrasado e, consequentemente, não entrava na escola e tinha que retornar para a casa) ia para a Biblioteca Monteiro Lobato, que ficava no mesmo local do Salesiano, na Praça Almeida Couto, no bairro de Nazaré. Frequentei muito essa biblioteca, mesmo quando não mais estudava no Salesiano. Acho que se alguém fizer um levantamento da frequência a essa biblioteca, irá verificar que eu fui um dos que mais a frequentaram. Lá, lia muita coisa: estórias em quadrinhos, enciclopédias (naquela época não existia o Google...), principalmente aquelas de Ciências (Conhecer, Ciência Ilustrada, só para citar algumas) e que tratavam da biografia de personagens da História Geral e do Brasil. Li muito mesmo, em especial todos os fatos que levaram à conquista da Lua; não só lia como fazia muitas cópias (gostava muito de escrever, também). Muito bom tempo esse, que realmente tenho saudades.

Bem, permaneci no Liceu Salesiano até a 3ª Série Ginasial; aconteceu que eu fui reprovado (em matemática), não conseguindo passar para a 4ª Série e, consequentemente, perdi a bolsa e tive que procurar um colégio público, do Estado. E aí começa uma nova jornada.

FIM DO CAPÍTULO 2

domingo, 8 de setembro de 2013

BREVES MEMÓRIAS DE UM HOMEM COMUM

Cid José Passos Bastos
 CAPÍTULO I

Nasci em um dia da data de 31 de outubro de 1957, na maternidade Climério de Oliveira, em Salvador, não me recordo qual o horário, mas não importa muito. O certo é que mergulhei na luz do planeta Terra, em uma cidade do Litoral do Brasil, no Estado da Bahia, um ano antes de a Seleção Brasileira conquistar a Copa do Mundo na Suécia. Fui o último a nascer, e nasci no último dia do mês, do antepenúltimo mês do ano; atualmente, o dia 31 de outubro é festejado como “Dia das Bruxas”. Filho caçula de uma família pobre, de oito filhos. Hoje, aos 55 anos, no mês de agosto (já perto dos 56 anos...), resolvi escrever essas suaves e breves memórias, para que eu não esqueça o meu passado, já que muita coisa que escrevi na adolescência (no meu caso, se é que aquela fase pode realmente ser chamada da adolescência) e tenra juventude, eu mesmo dei um fim.
Claro que não me recordo de muita coisa e de muitos detalhes da infância, mas, aquilo que ficou marcado, por uma razão ou outra, eu ainda tenho na memória. Evidente, também, que nem tudo eu poderei escrever aqui, por envolver assuntos, em parte desagradáveis, em parte porque envolve outras pessoas que não seria lícito, no meu julgamento, dar a público.
Um dos fatos que marcaram minha infância foi um “acidente” com o meu carro de brinquedo, um Jeep vermelho, todo de metal, movido a pedal, que eu estava dirigindo e se chocou com um poste na rua, por causa de um senhor (o seu Lalau, acho que era esse o seu nome ou apelido) que estava sentado entre o poste e a parede de sua casa; quando vi o Seu Lalau sentado na cadeira no único lugar que eu poderia passar (a rua era um suave declive), não tive muita dúvida: deixei o carro se chocar contra o poste de iluminação pública, para evitar levar o velho na frente. Bem, o resultado foi que eu caí sentado na transmissão (que era de ferro) do pedal para as rodas e, é claro, danificou a frente do Jeep. Lógico que chorei bastante na hora, porque, realmente, doeu. O Jeep levou algumas semanas para ser consertado. A rua a que me refiro é o Beco do Cirilo, na Estrada da Rainha.
Ainda em relação ao Jeep, quando retornou do reparo, fui imitar o meu pai (que era mecânico) e coloquei o Jeep suspenso por duas cadeiras, à moda de um macaco hidráulico, e fui “reparar” o carro, quando este caiu sobre mim (devo ter esbarrado na cadeira); dessa vez, não chorei (eu acho...), mas senti alguma dor. Se não me engano, já nesse período, mudamos para o bairro do IAPI.
No bairro do IAPI, esse tempo de criança foi muito bom. Brinquei bastante, o quintal de minha casa para mim era um mundo (hoje vendo alguns programas de Backyardigans me recordo quando ouço a música, em um trecho que diz “temos o mundo inteiro no nosso quintal”; realmente é assim mesmo). Naquela época a televisão passava algumas séries que para mim eram o máximo: Vigilante Rodoviário, Ripcord, Johnny Ringo, Wyatt Earp, Jim das Selvas, O Homem do Rifle, Bat Masterson, Ivanhoe, Zorro, Ultraman, Perdidos no Espaço, Viajem ao Fundo do Mar, Aventuras Submarinas, Flipper, entre outras (todas, ou quase todas, dos anos 1960). Eu, meus irmãos e alguns amigos, imitávamos muitos episódios dessas séries, ou fazíamos verdadeiros episódios baseados nelas; nós tínhamos criatividade de dar inveja a qualquer roteirista de cinema ou de telenovela.
Quanto aos carros de brinquedo, construíamos verdadeiras estradas, galpões e outras coisas no quintal de casa. E os bonequinhos, eram verdadeiras personagens de aventuras que criávamos. Mas, não era só o quintal de casa, também a rua que ficava no lado de minha casa (a casa fazia esquina com essa rua, mas tinha a frente para a Rua Conde de Porto Alegre), a Rua Fernando Leal que, àquela época, era apenas um caminho no meio de um matagal, o que nos proporcionava local ideal para as nossas aventuras; algum tempo depois, um trator alargou a rua, prolongando-a até a “baixa da fonte”, o que criou outras oportunidades de brincadeiras e tornou a rua um local ideal para os “babas”.
À mediada que fui crescendo mais um pouco, o futebol, o jogo de botão, o fura pé, o guiador e a gude tomaram o lugar dessas brincadeiras de criança mais tenra; o peão, eu nunca consegui jogar isso. Adorava jogar bola, um bom baba, embora eu nunca tivesse sido um bom jogador, sempre jogava ou “pegava” um baba, especialmente porque eu era o dono da bola..., e sem bola não há jogo. Mas, eu tinha as minhas qualidades no futebol: era um bom goleiro e quando não estava atuando nessa posição, sempre me posicionava bem para fazer o gol, chegando a ser o artilheiro da rua, com mais de 100 gols. Algumas vezes, nesses babas, perdíamos algumas bolas, porque a rádio patrulha levava a bola algumas vezes, quando esta caía no meio da pista. Mas, convivíamos bem com isso, sem necessidade de qualquer “manifestação” contra a “opressão policial”.
Nos demais jogos, também nunca fui excelência; no fura pé nunca fui bom, no jogo de gude apenas razoável, assim como no jogo de botão; agora, empinar pipa e assemelhados, eu nunca gostei. Andar de bicicleta também não, principalmente depois de algumas tentativas e quedas, eu desisti completamente.
Outra diversão para mim era acompanhar (na medida do possível) o meu pai e irmãos quando estavam consertando algum carro, ou mesmo o do meu pai; sempre auxiliava de algum modo, retirando algum parafuso, lavando peças em querosene ou gasolina e dirigindo o carro com o motor desligado, quando este era empurrado de um local para outro; nada disso gerou motivo para que se criasse alguma polêmica sobre “trabalho infantil” (creio, sinceramente, que a vagabundagem infantil é um mau bem pior). Certa vez, porque não consegui frear a tempo, o carro se chocou contra o cercado de arame do quintal de minha casa, o que levou o espanhol da padaria a me chamar sempre de “motorista”, com sotaque bem espanhol. Também isso não era considerado “bullyng”.
Há uma passagem, por essa época, que achei interessante. Desde menino pequeno tinha vontade de ter um carneiro (não sei bem por que, mas tinha vontade). E não é que eu acabei tendo um carneiro? Ele chegou a casa à noite, procedente de uma fazenda em São Gonçalo dos Campos. Esse carneiro era bastante peculiar: era de cor cinza, com o rosto e pernas pretas. O animal berrou a noite toda, certamente estranhando o local. Pela sua cor, demos a ele o nome de Chumbinho. Esse carneiro acabou sendo a sensação da rua; gostava muito de pão e, certa vez, foi correndo atrás de um menino que levava o saco de pão para casa, o qual também correu, quase chorando, com medo do carneiro. Fui atrás e segurei o carneiro. Em outra ocasião, ao avistar na “cristaleira” da vizinha, Dona Guiomar, o pão, o carneiro correu para dentro da casa e por pouco não quebrou o vidro do móvel para pegar o pão.  Chumbinho, certa vez, foi solicitado para participar de uma gincana (era muito comum, à época), vestido com roupas de menino; foi uma sensação na rua, todos riram.
Bem, esses foram alguns momentos lúdicos.
Outros fatos interessantes ocorreram nos anos 1960 em Salvador, como o desfile da Primavera, realizado na Fonte Nova (minha irmã mais velha, Lícia, sempre participava) e a Gincana Baiana da Primavera, transmitida pela televisão. Lembro-me que existia uma corrida de automóveis, tipo stock-car, que também era transmitida pela televisão, realizada na Avenida Centenário, em Salvador. Recordo até do nome de um piloto: Lulu Geladeira.
No início dos anos 1970, exatamente em 1970, tive o prazer de ver a Seleção Brasileira ganhar a Copa do Mundo, no México. Cheguei a ter alguns bonequinhos dos jogadores (quase a seleção completa), que vinham de brinde no frasco de Toddy.

Tenho outras recordações desse período dos anos 1960 e 1970. Recordo dos refrigerantes, como Guaraná Fratelli Vita, Gasosa de Pera, Guaraná Champagne Antarctica, Grapette, entre outros. Nessa época quero registrar a lembranças das festas juninas: no IAPI era bastante animado, com quase todas as casas com suas fogueiras na porta. Fazer a fogueira era o que eu mais gostava no São João.
Fim do Capítulo I