quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

sexta-feira, 29 de novembro de 2013


SÉRIE TEXTOS DIDÁTICOS – ANO 2014

ORIGEM E EVOLUÇÃO DAS EMBRIÓFITAS. O COMEÇO DE UMA LONGA HISTÓRIA EVOLUTIVA

Cid José Passos Bastos
Professor Associado
Instituto de Biologia
Universidade Federal da Bahia


As Embriófitas, ou plantas terrestres, podem ser definidas por sua principal característica, que é a presença de um embrião, estrutura que surgiu pelo desenvolvimento do zigoto através de divisões mitóticas. A presença do embrião distingue as embriófitas de todos os outros eucariontes fotossintetizantes. O embrião se desenvolverá em um esporófito, estrutura multicelular que representa a fase diploide do ciclo de vida das embriófitas e que é responsável pela formação, através de divisões meióticas, de esporos (sendo, assim, meiósporos), que são os elementos de dispersão; os esporos potencialmente originarão gametófitos que representam a fase haploide responsável pela formação de gametas (células de fusão) e, portanto, pelo processo de reprodução sexuada. Assim, no ciclo de vidas das embriófitas, temos duas fases: uma haploide, responsável pelo processo de reprodução sexuada, e uma diploide, responsável pela dispersão e regeneração da fase produtora de gametas. Esse ciclo representa a alternância heterofásica ou de gerações. Nesse ponto, a história evolutiva das embriófitas teve o seu início.
Embora a alternância de gerações tenha evoluído várias vezes no grupo das algas, ela é uma inovação evolutiva no ambiente terrestre. A origem e as modificações posteriores da alternância de gerações no ambiente terrestre assinalam a origem e evolução das embriófitas.
                As embriófitas tiveram origem a partir de um ancestral com estreitas relações com as algas carofíceas, possivelmente do grupo das Zygnematophyceae (Karoll et al. 2010; Cox et al. 2014; Wickett et al. 2014). Embriófitas e carofíceas juntas constituem o clado Streptophyta. O clado Streptophyta e o clado Chlorophyta constituem o grande clado Viridiplantae (literalmente, plantas verdes). Mas, quando realmente tudo isso começou?
                A história evolutiva das plantas (organismos fotossintetizantes que teriam evoluído por endossimbiose plastidial) começou aproximadamente a 1,5 - 2 bilhões de anos, quando os plastídios foram originados por endossimbiose. O processo de endossimbiose que originou os plastídios ocorreu, básica e resumidamente, em três etapas: endossimbiose primária, endossimbiose secundária e endossimbiose terciária. Processos de ganhos e perdas de plastídios após o evento de endossimbiose primária resultaram na origem de grupos de algas (Chlorarachniophyta, Stramenopila e Alveolata, por exemplo) e de determinados organismos sem plastídios. Os eventos de endossimbiose que deram origem às plantas serão sumarizados a seguir.
                O evento de endossimbiose primária teria ocorrido quando uma cianobactéria (bactéria que apresenta fotossíntese oxigênica, processo metabólico presente em todas as plantas) teria sido fagocitada ou teria penetrado um eucarionte heterotrófico aeróbio (já possui mitocôndrias); esse evento teria dado origem ao plastídio primário, com duas membranas (uma membrana da cianobactéria e uma membrana da vesícula de fagocitose do eucarionte). O processo de endossimbiose primária teria originado as Rhodophyta, Glaucophyta e Viridiplantae (Chlorophyta e Streptophyta). A partir dessas linhagens com plastídios primários, todos os outros grupos fotossintetizantes tiveram sua origem, através dos eventos de endossimbiose secundária e terciária. Endossimbiose secundária teria ocorrido quando um eucarionte fotossintetizante com plastídios primários teria sido incorporado por um eucarionte heterotrófico aeróbio, dando origem ao plastídio secundário, caracterizado por apresentar 3 – 4 membranas (duas do plastídio primário do eucarionte fagocitado, uma da alga fagocitada e uma oriunda da vesícula de fagocitose do eucarionte heterotrófito; a membrana da alga fagocitada foi perdida em alguns grupos, resultando no plastídio com três membranas). Já o processo de endossimbiose terciária teria ocorrido quando uma alga com plastídio secundário teria sido incorporada por um eucarionte heterotrófico aeróbio, resultando em um plastídio terciário. Processos de perdas e substituições de plastídios, que teriam originados certas linhagens de dinoflagelados, não serão aqui analisados. De um modo geral, as diversas linhagens de algas com plastídios secundários e terciários foram originadas a partir da linhagem Rhodophyta e da linhagem Chlorophyta (um grupo de Viridiplantae): a linhagem Chlorophyta teria originado as euglenídeas e as cloraracniófitas (Chlorarachniophyta); a linhagem Rhodophyta teria originado as Chromoalveolata, tanto por endossimbiose secundária quanto por terciária, embora alguns grupos de dinoflagelados tenham sido originados por um processo de “endossimbiose secundária serial”, a partir da linhagem Chlorophyta (McFadden 2001; Keeling 2004; Stiller 2007; Nozak et al. 2009; Keeling 2010).
                Após o esboço sobre a origem de Viridiplantae, estamos agora em condições de analisar a origem das embriófitas. O clado Viridiplantae, como já assinalado, é constituído por dois clados: Chlorophyta e Streptophyta (não serão aqui analisadas as diferenças morfológicas e de ultraestrutura entre Chorophyta e Streptophyta). A separação entre Chlorophyta e Streptophyta ocorreu aproximadamente entre 1200 – 725 Ma (Becker & Marin 2009). São reconhecidas dentro de Streptophyta seis linhagens de algas, todas habitando o ambiente de águas continentais (conhecidas genericamente como carofíceas): Mesostigmatophyceae, Chlorokybophyceae, Klebsormidiophyceae, Charophyceae, Zygnematophyceae e Coleochaetophyceae (Becker & Marin 2009; Lilieart et al. 2012). Ainda existe grande polêmica sobre qual dos grupos de caróficeas seria o grupo irmão das embriófitas; recentemente, porém, filogenias apontam as Zygnematophyceae como grupo irmão das embriófitas. Independente de qual linhagem seja ancestral das embriófitas, está evidente que é uma alga caróficea (lato senso). Muito dos caracteres apresentados pelas embriófitas evoluíram dentro das algas Streptophyta, tais como a presença de fragmoplasto, esporopolenina, retenção do zigoto, síntese da celulose sintetase, placenta e crescimento apical (Becker & Marin 2009; Pires & Dolan 2012). As algas caroficeanas apresentam ciclo haplôntico, indicando que os indivíduos produtores de gametas (gametófito) são haplontes, sendo o zigoto a única fase diploide do ciclo. O zigoto, assim, para originar novos gametófitos, deve, necessariamente, sofrer divisões meióticas (meiose zigótica). Considerando que as embriófitas apresentam a alternância de gerações como ciclo de vida, então devem ter ocorrido modificações substanciais no ciclo haplôntico das algas caroficeanas, modificações essas que proporcionaram a origem da alternância de gerações no ambiente terrestre e, consequentemente, a origem das embriófitas. No entanto, esse fato nem sempre foi consenso.
                A polêmica sobre a origem da alternância de gerações data de muito tempo (Pringsheim 1878; Bower 1908; Goebel 1930). Existem duas teorias que tentam explicar a origem da alternância de gerações no ambiente terrestre: a Teoria Homóloga ou da Transformação, apresentada por Pringsheim (1878) e defendida por Goebel (1930) Eams (1936), Bold (1948), Ditmer (1964) (apud Blackwell 2003), e a Teoria Antitética ou da Interpolação, apresentada por Bower (1908) e defendida por Smith (1938), Campbell (1940), Haupt (1953) (apud Blackwell 2003), e mais recentemente pela maioria dos autores (por exemplo, Kato & Akiyama 2005, Becker & Marin 2009; Gerrienne & Gonez 2011; Pires & Dolan 2012; Leliaert et al. 2012; Doyle 2013).
                A Teoria Homóloga está fundamentada na alternância isomorfa de gerações. A teoria advoga que o ancestral das embriófitas possuía um ciclo de vida do tipo alternância isomorfa de gerações, e que a fase diploide, o esporófito, seria uma modificação do gametófito haploide ocasionada por um evento: divisões mitóticas do zigoto, que daria origem à fase diploide (esporófito). Assim, consoante essa teoria, o esporófito já existia no ancestral das embriófitas, porém, considerando que em todas as embriófitas basais (briófitas, licófitas e samambaias) o esporófito se desenvolve, ao menos inicialmente, no gametófito, a única inovação seria a retenção do zigoto no gametófito, uma vez que nas algas que apresentam alternância de gerações o esporófito é de vida livre, não se desenvolvendo no gametófito, já que o zigoto é liberado no ambiente. Dessa forma, o esporófito já existia antes da colonização do ambiente terrestre. Assim considerando, esporófito física e estruturalmente dependente do gametófito, como observado nas briófitas, seria aquisição posterior. Mas, a Teoria Homóloga não explica como esse processo teria ocorrido, e como os meiósporos das embriófitas, que são aplanósporos (esporos imóveis) teriam surgido, já que os meiósporos das algas com alternância de gerações isomorfa são planósporos (esporos móveis, adaptados ao ambiente aquático). O único possível suporte para essa teoria seria o registro fóssil encontrado de esporófitos e gametófitos aparentemente de vida livre e com semelhança morfológica. Mas, esse fato também poderia ter sido um evento posterior.
                Existem alguns outros fortes argumentos contra a Teoria Homóloga, além desses apresentados acima (esporófito física e fisiologicamente dependente do gametófito e meiósporos móveis). O mais forte é o fato de que em todas as análises filogenéticas, o ancestral das embriófitas surgiu nas algas Streptophyta, que são haplontes e, assim, apresentam ciclo de vida haplôntico, em que nenhum esporófito multicelular se desenvolve. Assim, o esporófito seria uma inovação, adquirida pelo ancestral quando da colonização do ambiente terrestre. É exatamente o que advoga a Teoria Antitética.
                A Teoria Antitética ou da Interpolação está fundamentada no ciclo haplôntico. Preconiza essa teoria que o esporófito teria sido originado pelos seguintes eventos: (a) retenção do zigoto no gametófito; (a) atraso da meiose do zigoto, sendo que este sofre divisões mitóticas formando uma estrutura multicelular que se desenvolve sobre o gametófito e é dependente deste para sua nutrição e desenvolvimento, processo denominado “matrotrofia”. Embora seja uma novidade evolutiva para as embriófitas, a retenção do zigoto no gametófito e divisões mitóticas posteriores formando uma estrutura multicelular que se desenvolve no gametófito, já tinha ocorrido nas algas Rhodophyta; nessas algas, o zigoto, retido no gametófito, sofre mitoses e forma uma série de filamentos (filamentos gonimoblastos), no conjunto denominado carposporófito; o carposporófito irá produzir esporos diploides por divisões mitóticas, os quais são liberados no ambiente e irão originar o esporófito de vida livre, o tetrasporófito que, por sua vez, irá produzir meiósporos (então, por meiose), que irão se desenvolver em novos gametófitos. Assim, Rhodophyta apresenta a alternância de gerações em três fases, uma haploide e duas diploides, sendo que uma delas, o carposporófito, se desenvolve sobre o gametófito, já que o zigoto não foi liberado. Contudo, Rhodophyta não apresenta qualquer relação filogenética com as embriófitas, exceto o fato de ter sido também originada por um processo de endossimbiose primária.
                Consoante a Teoria Antitética, as primeiras plantas terrestres (as primeiras embriófitas) teriam esporófitos simples e dependentes física e fisiologicamente do gametófito. Esse fato pode ser observado nas briófitas, grupo constituído por três linhagens: Anthocerotophyta, Marchantiophyta e Bryophyta. Proposição recente aponta para o monofiletismo das briófitas, com os antóceros sendo basal (ver Cox et al. 2014; Wickett et al. 2014). Porém, hipótese filogenética anterior e atual resolvendo Marchantiophyta como grupo irmão de todas as outras embriófitas ainda é a mais aceita. As briófitas são basais em relação às traqueófitas (plantas vasculares), o que reforça o suporte para a Teoria Antitética. Além desse fato, existem outros aspectos que propiciam forte suporte para a Teoria Antitética: (a) a relação de grupo irmão das algas caroficianas; (b) meiósporos imóveis, adaptados à dispersão pelo vento; (c) características já presentes nas algas estreptófitas, como esporopolenina, placenta e crescimento apical.
                Diante dessas considerações, o ancestral das plantas terrestres teria uma alternância de gerações heteromorfa, com dominância do gametófito e esporófito multicelular, simples, representado, provavelmente, por um pé haustorial ligado ao tecido gametofítico e um esporângio apical. Assim, o esporófito ancestral era simples, sem fase vegetativa e monosporangiado. Maior especialização morfológica do esporófito foi um evento posterior. Essa condição ancestral do ciclo de vida das embriófitas está presente nas briófitas, nas suas três linhagens:, Marchantiophyta, Bryophyta e Anthocerotophyta. Assim, as primeiras embriófitas eram representadas por plantas com características muito próximas às das briófitas atuais.
                As embriófitas atuais estão representadas por dois grandes grupos de plantas: (a) aquelas que apresentam o gametófito haploide como geração dominante do ciclo de vida, com o esporófito crescendo sobre o gametófito e parcialmente dependente deste para o seu desenvolvimento; tais plantas estão representadas pelas linhagens das briófitas:, Marchantiophyta (as hepáticas), Bryophyta (os musgos) e Anthocerotophyta (os antóceros); (b) aquelas que apresentam o esporófito como a geração dominante do ciclo de vida, com o gametófito haplóide de vida curta e pouco desenvolvido morfologicamente e que, no curso da evolução das embriófitas, se tornou dependente do esporófito, crescendo sobre este; tais plantas estão representadas pelas traqueófitas (licófitas, samambaias, gimnospermas e angiospermas). Mas, antes que esse estádio fosse alcançado, gametófito e esporófito tiveram dominância aproximadamente igual, sendo ambos independentes; isto ocorreu com as primeiras plantas vasculares hoje extintas, as riniófitas (Rhyniophyta).
                O aparecimento das plantas vasculares, chamadas de polisporangiadas, provavelmente deve ter ocorrido no final do Ordoviciano, com maior diversificação no Devoniano (Kenrick & Crane 1997; Kato & Akiyama 2005; Becker & Marin 2009). Essas primeiras plantas vasculares tinham esporófitos ramificados, ainda áfilos, com esporângios no ápice dos ramos. Assim, a ramificação do esporófito e sua total independência do gametófito marcam a origem das plantas vasculares. O evento mais crucial, possibilitado pela ramificação do esporófito, foi a elaboração de uma fase vegetativa intercalada entre o zigoto e o gametófito. Tal fase vegetativa de longa duração do esporófito está ausente em todas as linhagens das briófitas, indicando que esse evento foi uma aquisição posterior. Contudo, nos musgos e hepáticas, há formação na fase embrionária de um eixo vegetativo, mas com a formação precoce (ainda no esporófito jovem) de tecido esporogênico. Nas traqueófitas, contudo, não há formação de tecido esporogênico na fase jovem do esporófito. Kato & Akiyama (2005) discutiram e apresentaram uma hipótese para a origem da fase vegetativa do esporófito. De acordo com esses autores, a ramificação do esporófito teria surgido pela persistência do meristema apical (célula apical) no embrião. Como demonstrado por Kato & Akiyama (2005) no desenvolvimento embrionário do esporófito nas briófitas e polisporangiófitas, a célula apical nos musgos e antóceros origina o esporângio (o esporângio das hepáticas não é formado por célula apical, portanto, não há formação de meristema), enquanto que nas polisporangiófitas a célula apical não forma imediatamente o esporângio, mas divide-se possibilitando a ramificação (inicialmente dicotômica) do esporófito e originando uma fase vegetativa trófica antes da formação dos esporângios apicais. Assim, a origem das traqueófitas é marcada pela ramificação e consequente especialização metabólica do esporófito, o que propiciou a sua completa independência do gametófito.
Uma hipótese um pouco diferente, contudo, foi estabelecida por Ligrone et al. (2012). De acordo com a interpretação de Ligrone et al. (2012), o embrião dos musgos consiste de um primórdio do esporângio, de um pé haustorial de derivação hipobasal e, entre essas duas regiões, uma zona meristemática basal. Segundo esses autores, o principal caráter que distingue os musgos dos antóceros e polisporangiófitas, é a amplificação da parte do esporófito que expressa o estômato e tecido fotossintético, o que coincide com o esporângio nos antóceros e o corpo vegetativo do esporófito nas polisporangiófitas. De acordo com Ligrone et al. (2012), o estômato exerceu um importante papel na evolução do corpo vegetativo do esporófito. Segundo Ligrone et al. (2012), o papel ancestral do meristema basal na linhagem estomatófita (musgos + antóceros + polisporangiófitas) foi a de elevar o esporângio acima do tecido gametofítico, permitindo, assim, ao estômato exercer sua função na troca de gases. Essa, portanto, seria a condição ainda encontrada nos musgos. No entanto, segundo ainda Ligrone et al. (2012), a conversão do meristema basal em um meristema permanentemente ativo produzindo tecido esporangial ao invés da seta, resultou na amplificação da câmara subestomática e de tecido clorenquimático no ancestral dos antóceros e polisporangiófitas. De acordo com Ligrone et al. (2012), a elaboração do plano do corpo vegetativo do esporófito e a subjacente organização do embrião nas polisporangiófitas envolveu a supressão do primórdio do esporângio, modificação da posição do meristema basal que passou a ser apical, e o desenvolvimento do esporófito em duas fases temporalmente distintas, ou seja, a formação do corpo vegetativo e a produção de tecido esporogênico (arquespório e tecidos associados). De acordo ainda com esses autores, a hipótese de que o meristema apical ancestral foi originado de uma área embrionária pré-determinada para produzir tecido esporogênico, implica na interpretação de que o corpo vegetativo do esporófito foi resultado da esterilização do eixo esporangial, intercalado entre o embrião e o esporângio fértil (Ligrone et al. 2012). Dessa forma, considerando a condição ancestral encontrada nos musgos e antóceros (o primórdio do esporângio forma imediatamente tecido esporogênico), comparativamente à encontrada nas polisporangiófitas, implica no fato de dois eventos heterocrônicos: uma antecipação (progênese) e um atraso no desenvolvimento do esporângio; a primeira condição é encontrada nos musgos e antóceros e a segunda nas polisporangiófitas (Ligrone et al. 2012).
Outra teoria surgiu recentemente, estabelecida por Tomescu et al. (2014), para explicar a origem do esporófito das traqueófitas. De acordo com esses autores, a hipótese mais plausível e parcimoniosa é de crescimento apical. Consoante essa teoria, nos primeiros estádios do desenvolvimento o embrião das briófitas segue um programa de desenvolvimento vegetativo que resulta na produção de um eixo axial, a seta, e subsequentemente ocorre a formação do tecido esporogênico (o esporângio é formado). A teoria advoga que ocorre um prolongamento do crescimento apical, via meristema apical (que se torna permanente), culminando no maior desenvolvimento vegetativo e ramificação do esporófito; esse evento marca, assim, a origem das polisporangiófitas.
                No curso da evolução das polisporangiófitas, assim chamadas pelos seus múltiplos esporângios em razão da ramificação do esporófito, houve um momento evolutivo em que gametófito e esporófito tiveram dominância equivalente. Isso foi demonstrado por Garrienne & Gonez (2011) no seu estudo sobre a evolução do ciclo de vida das primeiras embriófitas, a partir da descoberta de gametófitos axiais em depósitos fósseis do Devoniano. De acordo com Gerrienne & Gonez (2011), algumas das primeiras traqueófitas poderiam ter tido alternância de gerações, com esporófito e gametófitos independentes. Não existem evidências de como essa transição ocorreu a partir da condição ancestral. O fato é que, em algum momento da história evolutiva das traqueófitas, gametófitos e esporófitos permaneceram independentes um do outro. Contudo, no curso evolutivo, o esporófito continuou a crescer sobre o gametófito, embora este tenha se tornado pequeno, simples e de vida efêmera, embora de vida livre, como observado nas traqueófitas basais (licófitas e samambaias). É possível, no entanto, que ambas as condições (esporófito e gametófitos de vida livre, e esporófito crescendo sobre o gametófito) tenham ocorrido concomitantemente, já que evidências fósseis de algumas plantas do Devoniano, tal como Cooksonia, mostram esporófito ramificado crescendo sobre uma estrutura talosa, interpretada como gametófito (ver Garrienne & Gonez 2011). Essa condição deve ter permanecido, uma vez que o esporófito das licófitas e samambaias cresce, inicialmente, sobre o gametófito. Entretanto, cabe analisar o seguinte fato: nas atuais embriófitas, não se observa independência completa de ambas as gerações. Observam-se as seguintes condições: (1) esporófito se desenvolve e permanece ligado ao gametófito, condição essa encontrada em todas as linhagens das briófitas; (2) o esporófito se desenvolve inicialmente sobre o gametófito, o qual é simples, de dimensões reduzidas e com tempo de vida curto, condição encontrada nas licófitas e samambaias; (3) o gametófito efêmero deixa de ser de vida livre, se desenvolvendo e permanece sobre o esporófito, condição encontrada em todas as espermatófitas. Dessa forma, não há como imaginar esporófitos e gametófitos totalmente independentes; em algum momento, o esporófito deve ter se desenvolvido sobre o gametófito, tornando-se independente no curso de seu crescimento, como atualmente se observa nas licófitas e samambaias. De outro modo teria que se admitir que o embrião formado no gametófito fosse liberado no ambiente. Se isso fosse admitido, então um primórdio de semente teria já existido nessas primeiras traqueófitas. Dessa forma, a semente teria múltipla origem.
                À luz dessas considerações, fica evidente que a evolução das embriófitas foi marcada por duas claras tendências: maior complexidade do gametófito e menor complexidade e parcial dependência do esporófito, o qual é, assim, matrotrófico, observada nas linhagens das briófitas (condição ancestral), e maior complexidade e independência do esporófito e redução do gametófito, culminando com a sua total dependência do esporófito, condição encontrada nas traqueófitas. Essa condição encontrada nas traqueófitas necessitou de profundas modificações no ciclo reprodutivo das embriófitas, notadamente a partir das licófitas. Foge ao escopo desse ensaio a abordagem dos passos evolutivos que resultaram nessa atual condição encontrada nas traqueófitas (gametófito reduzido, matrotrófico e dependente do esporófito). Para essa análise, ver o texto “Breve ensaio sobre a evolução do processo reprodutivo. Parte II: Do esporo à semente” (http://cjpbasto.blogspot.com.br/2013_08_01_archive.html).

Literatura citada
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domingo, 22 de setembro de 2013


MEMÓRIAS DE UM HOMEM COMUM - PARTE IV

CAPÍTULO 4

Cid José Passos Bastos

Comecei, então, a minha vida na Universidade em 1979, no Curso de Biologia da Universidade Federal da Bahia. Foi tudo para mim; estar estudando o que eu gostava, para ser o profissional que eu queria e que tinha vocação. Durante o primeiro ano do curso conheci alguns colegas que, juntos, resolvemos que estudar a célula seria o passo inicial para o entendimento de vários processos fisiológicos e metabólicos; assim, nasceu um grupo, e nos encontrávamos sempre para estudar a célula. Por isso, comprei muitos livros sobre célula. Mas, não estudava só isso. Estudava muita coisa, programei muitas coletas (isso durante quase todo o curso), especialmente de organismos marinhos (na época, não havia problemas com o órgão ambiental, para se coletar). Mas, não ficou só nisso. Nesse período, ocorreu a regulamentação da Profissão de Biólogo, e conseguimos que a Professora Terezinha Guzzo, na época Presidente da Associação Baiana de Biologia – ABAB fizesse uma palestra sobre a lei recentemente regulamentada (foi regulamentada no dia 3 de setembro de 1979); a palestra ocorreu no final da tarde, no Anfiteatro 132 (hoje sala 02) do Instituto de Biologia. A Professora Terezinha Guzzo, embora fosse Bióloga, era do Instituto de Geociências.
No segundo ano do curso, comecei a estagiar em um laboratório do Instituto de Química, no Projeto Estudos Ecológicos do Recôncavo, o qual tinha muita atividade de campo (coletas sistematizadas, realizadas na Baía de Todos os Santos). O objetivo era estudar os efeitos de metais pesados, principalmente mercúrio, nas populações de moluscos bivalves; minha orientadora nesse período foi a Professora Marlene Campos Peso de Aguiar. Foi muito bom e importante esse período para minha formação. Participei desde o 2º Seminário Estudantil de Pesquisa até a minha formatura, e um semestre depois dela, mas não apenas nesse Projeto. Quero relatar aqui alguns fatos, mas não todos os acontecimentos desse período de minha vida.
Após sair desse Projeto, fui ser monitor da Disciplina Botânica V, sob a orientação da Professora Dayse Vasques Martins; esse fato determinou a minha vida profissional, como pesquisador. Foi nessa fase que comecei a estudar briófitas. Inicialmente, logo que fui aprovado na seleção de monitor, a Professora Dayse, que era especialista em Desmidiaceae, colocou para mim uma questão: queria que eu desenvolvesse no Laboratório que ela coordenava, uma pesquisa sobre o grupo de organismo de meu interesse. Assim, comecei com algas marinhas bentônicas, mas, quando conheci as briófitas, nunca mais me afastei delas. E foi assim que comecei a estudar essas pequenas e fascinantes plantas. Pouco depois, comecei a organizar a coleção de briófitas do Herbário Alexandre Leal Costa (ALCB), por solicitação da Professora Lectícia, à época curadora do Herbário.
Durante o período do curso de Biologia, estive envolvido com questões ambientais. Em razão de um episódio noticiado pela televisão sobre o Parque Zoobotânico Getúlio Vargas (onde fica o Zoológico de Salvador), resolvi reunir alguns colegas interessados para fazer uma visita ao Parque para observar a situação de preservação do local e as condições do Zoológico de Salvador. Fiz a chamada para o encontro em um cartaz, com a frase: Precisamos formar um mutirão ecológico para verificar as condições ambientais do Parque (foi mais ou menos assim); dessa forma foi criado o Grupo Mutirão Ecológico. Denunciamos as condições impróprias que viviam os animais do zoológico em uma reportagem de uma página no Jornal da Bahia, e fizemos várias atuações na área de educação ambiental, inclusive com palestras nas Escolas Estaduais, aproveitando um convênio do IBDF (à época, era IBDF, depois passou a ser IBAMA) com a Secretaria de Educação do Estado da Bahia. Tínhamos muitas atividades; participamos da Folha Ambiental, um pequeno informativo ambientalista criado pelo grupo Gérmen, de Arquitetura, e pelo GAMBA. Também realizamos a primeira Semana do Meio Ambiente do Instituto de Biologia, com participação de palestrantes de fora da Instituição e, inclusive, da Dra. Neomy Tomita, de São Paulo, na época Presidente da Associação Paulista de Biologia, uma das associações que mais lutou para a regulamentação da Profissão de Biólogo. Promovemos, também, um Minicurso sobre Corais, ministrado pela Professora Zelinda Margarida Leão.  Já próximo ao final do curso, por desgaste natural, o grupo encerrou as suas atividades. Foi um período muito interessante e importante.
Alguns fatos pitorescos aconteceram durante o curso; um deles, que recordo bem, foi o incêndio no Instituto de Química, quando eu ainda estagiava lá. Foi um incêndio no almoxarifado, onde eram guardadas muitas substâncias químicas; ao chegar para o estágio, encontrei já a situação estabelecida e acabei auxiliando na retirada das diversas substâncias do local, após as chamas terem sido debeladas. Sobre esse acontecimento, escrevi uma crônica, cujo título era: Água não, pó químico!
Durante o curso de graduação em Biologia, fiz muitas coisas, estudei muito, comprei muitos livros, fiz muitas coletas, viagens com o Mutirão Ecológico, inclusive para o Monte Pascoal. Foi muito bom e marcante esse período. Ocorreram fatos desagradáveis, dificuldades, que prefiro não comentar nessas curtas memórias.
Foram muito importantes, também, nessa época, os mergulhos livres que fiz na Barra e em Itapuã, com o meu amigo e colega de curso, Marco Aurélio. Nós nos divertíamos  bastante nesses mergulhos.
Após a minha formatura, sem solenidade, continuei como estagiário do Laboratório da Professora Dayse, estudando as briófitas, cujos estudos resultaram no meu primeiro artigo científico, sobre a ocorrência de espécies de antóceros em Salvador. Fiz um curto estágio no Instituto de Botânica de São Paulo, com orientação da Dra. Olga Yano.  Depois, por problemas pessoais que prefiro não relatar, tive que me afastar por um período de mais de dois anos. Nesse período em que eu estive afastado, a Professora Dayse se aposentou. Retornei no ano de 1990, estagiando no Herbário Alexandre Leal Costa, com orientação da Professora Lectícia Scardino Scott Faria, então curadora do Herbário. Foi um período importante, em que fiz muitas coletas de briófitas, que resultaram em duas publicações.
Antes e durante essa fase, fui Professor de ensino médio em Camaçari, e no ano de 1990, fui aprovado em concurso para Professor no Estado da Bahia, sendo lotado no Colégio da Polícia Militar.
No ano de 1992, fiz e fui aprovado no Concurso Público para Docente de Ensino Superior, do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia, e fui nomeado em setembro de 1993, como Professor Auxiliar, lotado no Departamento de Botânica do Instituto de Biologia. Assim, consegui meu primeiro objetivo. Após solicitar Dedicação Exclusiva, requeri exoneração do cargo de Professor de ensino médio do Colégio da Polícia Militar. Depois, fiz Mestrado e Doutorado na Universidade de São Paulo e, até hoje, prossigo com meus estudos sobre as briófitas. Atualmente, sou Professor Associado do Instituto de Biologia – UFBA.
Com esse relato, encerro aqui minhas breves memórias, importantes, ao menos para mim.

FIM

sábado, 21 de setembro de 2013


MEMÓRIAS DE UM HOMEM COMUM - PARTE III

CAPÍTULO 3

Cid José Passos Bastos

Pois é, fui reprovado, perdi a bolsa de estudos e tive que procurar uma escola pública para estudar. Nessa época, já morava no bairro de Itapagipe, na Ribeira, em uma rua no Largo do Papagaio, precisamente na Rua Antônio Moniz. Até a 2ª Série Ginasial, ainda no Salesiano, morava no IAPI, na Rua Conde de Porto Alegre, junto ao Edifício São Marcelo. Agora, era morador da Ribeira, bairro que sinto saudades.
Após muito procurar, acabei achando vaga em um Colégio situado na Ribeira mesmo, o Colégio Estadual Presidente Costa e Silva. Lembro-me do primeiro dia de aula nesse Colégio; era um dia de chuva (no mês de março era costume chover muito em Salvador, naquela época), e fiquei impressionado com as condições da escola, muito diferente do que conhecia no Salesiano: paredes sujas, com muitas coisas escritas, cadeiras não muito boas (as chamadas “carteiras”), locais alagados nos corredores de acesso às salas. Estranhei bastante essas condições. Nessa época, a reforma do ensino já se iniciara e, assim, comecei nessa escola cursando a 7ª Série do 1º Grau. Fiquei em uma turma que, logo no meio do ano, foi dividida, dispersando-se alguns alunos indisciplinados para outras turmas, ficando apenas alguns deles. Isso também eu achei estranho.
Nessa escola tive desempenho acima do normal, não só porque vinha de uma escola como o Salesiano, mas também porque, após o trauma de ter perdido o ano, resolvi, após muita reflexão, estudar de verdade, ser realmente um ótimo aluno, não só no comportamento. Contudo, era muito estimado pelos colegas, porque nunca fui egoísta, sempre ajudei aos meus colegas, sem qualquer outro interesse. Foram, também, bons tempos esses. Conheci muitos bons colegas, que se tornaram meus amigos, como Cesar Roberto, Cláudio Dantas, Armando, Kalil, Aída Silva, entre outros. Entre esses, destaco o meu grande amigo Alcides da Silva Paranhos, um amigo de verdade. Essa turma permaneceu até depois de concluirmos o 2º Grau.
Uma das coisas que recordo dessa época, foi a minha participação (forçada, é claro), no desfile de 7 de setembro. Também recordo das aulas de Educação Física, que eram muito boas.
Essa época foi muito marcante para mim, os tempos da Ribeira. Gostava muito de nadar (nunca nadei em clube, apenas no mar) e nadava quase todo o tempo em que ia à praia, na Ribeira. Como o meu pai na juventude havia atravessado da Ribeira (praia da Penha) para Plataforma nadando, também quis fazer a mesma coisa; algumas vezes, assim, também atravessei nadando o trecho da praia da Penha à Plataforma e vice-versa (atravessava de volta assim que chegava à Plataforma). Nessa época, também, tinha a mania de colecionar coisas, e uma dessas coisas era o esqueleto calcário de um tipo de equinodermo, um ouriço discoide, chamado popularmente de “bolacha do mar”. Cheguei a ter uma caixa grande cheia desses esqueletos. Gostava muito de andar observando os animais marinhos, quando a maré estava baixa.
Essa época da Ribeira foi muito pitoresca. Resolvi, após muita reflexão, viver uma vida relativamente isolada, para pensar sobre a vida, o Universo, a sociedade humana. Esse isolamento (só tinha como amigos os colegas da Escola) acabou ocasionando alguns aborrecimentos para mim, que não tiveram tanta influência depois. O fato é que algumas pessoas não aceitam alguém fora dos padrões sociais normais. Mas, isso foi importante para mim. Foi nessa época que comecei a escrever, ensaios (hoje eu sei que eram ensaios) sobre diversos temas humanos, sociais, reflexões e crônicas. O meu primeiro escrito foi sobre o mar, que eu gostava muito, tanto que comecei a colecionar a publicação “A Enciclopédia do Mar” que, por razões financeiras de minha família, não foi possível concluir. O segundo foi sobre mim mesmo. Os demais, foram muitos, versaram sobre diversas coisas, alguns sobre mim mesmo.
Além de escrever, gostava muito de Química, estudava bastante e comprava material de vidraria, além de alguns reagentes, montando um pequeno laboratório em casa, em que fazia algumas reações químicas. Muito interessante essa fase, que durou até os primeiros anos do Curso de Graduação em Ciências Biológicas, na UFBA.
Nesse tempo no bairro de Itapagipe, na Ribeira, era a década dos anos 1970 (quando sai do Salesiano e comecei a estudar no Colégio Costa e Silva já era o ano de 1974). Vi o Brasil perder aquela Copa e disputar o 3º lugar com a Polônia e perder.
Foi um período também que eu lia muito, especialmente livros de filosofia, que foram escritos por grandes filósofos do iluminismo, tais como Voltaire, Thomas Morus, Erasmo de Roterdã, entre outros. Frequentemente ia ao Campo Grande e lá sentava em um daqueles bancos para fazer essas leituras. Também lia alguns bons livros de autores brasileiros, sendo Graciliano Ramos o meu autor predileto (o que mais gostei foi o livro Vidas Secas).
No ano de 1978 conclui o 2º Grau e em janeiro de 1979 fiz vestibular para o Curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal da Bahia. Fiquei sabendo que fui aprovado no vestibular no interior de um ônibus, quando ia para a casa de uma irmã minha, que morava no Engenho Velho de Brotas, nessa época; como fiquei sabendo? Vi no jornal antes de subir ao ônibus e, por sorte minha, dentro do ônibus uma senhora estava com o jornal olhando exatamente a lista dos aprovados... Não tive dúvidas, pedi à senhora para olhar a lista, e lá estava o meu nome. Ao chegar à casa de minha irmã, esta já sabia, pois havia ouvido no rádio a lista dos aprovados. E assim começou minha jornada Universitária, no Curso que eu queria e que tinha vocação. Mas, isso é o começo de outra história.

FIM DO CAPÍTULO 3

MEMÓRIAS DE UM HOMEM COMUM

Cid José Passos Bastos

CAPÍTULO 2

Minha vida acadêmica começou (como é normal, ao menos, deveria ser para todos), na mais tenra infância, e do jeito que deve ter começado para a boa parte das crianças pobres daquela época (anos 1960): em uma escolinha informal, cuja Professora (eram muito boas Professoras, é bom que se diga) foi formada no Curso Normal do Instituto Central de Educação Isaías Alves – ICEIA. Essa Professora, muito bem formada, como eram todas àquela época, chamava-se Beatriz, e era amiga de minha irmã, também formada Professora Primária na mesma Escola. Não lembro qual a minha idade àquela época, talvez 6 ou 7 anos, não sei. Também não sei quanto tempo fiquei naquela escola, aprendendo a ler, escrever e fazer as primeiras e básicas operações da aritmética; na verdade, conhecer os números. Mas, lembro-me bem que no primeiro dia em que fui a essa escola, na garupa da bicicleta de meu irmão, chorei bastante ao chegar lá e verificar que iria ficar sozinho naquele lugar estranho e cheio de outras crianças. Não recordo de como foi o meu andamento naquela escola.
Passada essa fase, cuja duração eu não lembro, minha mãe efetuou minha matrícula no Colégio Liceu Salesiano do Salvador, colégio de Padres em que, naquela época, só estudavam meninos. Fui matriculado no Curso Primário do turno vespertino, porque era gratuito, não se pagava nenhuma mensalidade ou matrícula; o turno matutino era pago. Eu era extremamente introvertido, tímido, como se costuma falar; pouco conversava e tinha um comportamento exemplar. Tive um bom desempenho escolar. Lembro-me de alguns fatos, poucos; por exemplo, que tive que cursar o 1º ano A e o 1º ano B antes de passar para o 2º ano Primário. Lembro-me também que a Vice-Diretora era uma mulher baixinha, mas bastante dura, que todos respeitavam (não recordo o seu nome), e que o nome de minha Professora do 3º e 4º anos era Odail Figueiredo. Recordo-me, também, que fazia muitos ditados de palavras, ditados de texto e composição, além das sabatinas e da terrível “Tabuada”. Isso foi muito útil para mim, ao menos os ditados e a composição.
Ao final do 4º ano Primário, por ótimo comportamento (eu era muito disciplinado) e bom andamento nos estudos, fui submetido a um “psicoteste”, pois estava concorrendo a uma bolsa dada pelo Colégio para estudar no turno matutino, que era pago. Fiz o teste, não logrando aprovação de imediato, pois, como fui informado pelo Padre responsável, errei os mais fáceis e acertei os mais difíceis; em vista disso, fiz novamente o teste e, desta vez, consegui aprovação e ganhei a bolsa. Assim, iniciei o 5º ano Primário no turno matutino. Não recordo de muita coisa, ou melhor, de nada significativo desse período, exceto, o final e de alguns fatos a ele relacionados. Para passar para a 1ª Série ginasial, logrando aprovação, é claro, teria que fazer uma “formatura”, cuja festa tinha que dançar valsa! Assim, quase todas as tardes tinha que ir ao Colégio com uma menina para ensaiar a dança. A minha companheira de dança foi uma vizinha, filha da madrinha de minha irmã mais velha. Essa menina tinha um nome bastante pitoresco: Aidéia, conhecida como “Deinha”. Pois bem, treinamos e até que chegou o grande dia: a festa de formatura. Tenho algumas fotografias desse evento, inclusive dançando valsa, além de outras, como recebendo o Diploma das mãos do Sr. Washington Luiz da Trindade, pai de um colega, Mario Borba da Trindade.
Não recordo de muita coisa. Mas, algo marcou bastante, nesse ano que iniciei o 5° ano Primário: a chegada do Homem à Lua, em junho de 1969, a qual assisti pela Televisão. Foi muito interessante mesmo.
Tenho algumas outras lembranças. A começar pelo Padre encarregado de manter a disciplina, o Padre Luiz Marinho Falcão, que todos respeitavam. Sempre tive comportamento disciplinar exemplar, embora não gostasse de estudar matemática, principalmente. Mas, nas outras matérias, nunca tive problema: gostava muito de História, Geografia, Educação Moral e Cívica e, principalmente, Ciências; na 1ª Série ginasial, um livro praticamente determinou a minha vocação: O Caminho do Cientista. Incrivelmente, agora aos 55 anos, consegui achar, por mero acaso, um exemplar desse livro! Da mesma forma, o livro de Ciências da 3ª Série também provocou um grande estímulo para gostar de Ciências. A essa época, eu já queria ser um cientista, o que, realmente, acabei conseguindo.  O problema sempre foi matemática; eu lembro que durante as aulas de matemática, ficava um pouco disperso, olhando para a paisagem externa da sala de aula, imaginando coisas e acontecimentos e, consequentemente, não conseguia entender certos assuntos como deveria. Isso me custou caro, ao final. No mais, tudo ia normal, só que aconteceu um evento que a todos causou grande surpresa: fui posto para fora da sala de aula! Mas, não por indisciplina; é que eu havia esquecido o livro de Francês (tive aula de Francês audiovisual na 1ª e 2ª Séries) e, como todos os outros colegas que também esqueceram, fui “convidado” a sair da sala. Como acontecia com todos que passavam por isso, fui aconselhado pelos mais “experientes” no assunto, a ir para o campo de futebol do Colégio, objetivando não ser visto pelo Padre Marinho.
Tenho algumas outras boas recordações do Liceu Salesiano: a rádio interna do Colégio, dirigida pelos alunos do Curso Científico, a gincana (Gincana Paleteira do Salesiano, assim chamada porque não podia se usar veículo, tudo tinha que ser a pé, na paleta), as Olimpíadas internas, o campeonato de futebol (que eu não participava), os jogos de ping-pong (que eu não jogava) dos intervalos (recreio, como era chamado) e do Conjunto Musical (atualmente chamado de Banda) formado pelos alunos do Científico; mas, tinha algumas outras coisas que achava chato, como participar da Missa todas as primeiras sextas-feiras do mês.
Algo que tenho uma grata lembrança desse período. Sempre gostei de ler e, sempre que podia, ou quando chegava atrasado à aula (não era permitido ao aluno chegar atrasado e, consequentemente, não entrava na escola e tinha que retornar para a casa) ia para a Biblioteca Monteiro Lobato, que ficava no mesmo local do Salesiano, na Praça Almeida Couto, no bairro de Nazaré. Frequentei muito essa biblioteca, mesmo quando não mais estudava no Salesiano. Acho que se alguém fizer um levantamento da frequência a essa biblioteca, irá verificar que eu fui um dos que mais a frequentaram. Lá, lia muita coisa: estórias em quadrinhos, enciclopédias (naquela época não existia o Google...), principalmente aquelas de Ciências (Conhecer, Ciência Ilustrada, só para citar algumas) e que tratavam da biografia de personagens da História Geral e do Brasil. Li muito mesmo, em especial todos os fatos que levaram à conquista da Lua; não só lia como fazia muitas cópias (gostava muito de escrever, também). Muito bom tempo esse, que realmente tenho saudades.

Bem, permaneci no Liceu Salesiano até a 3ª Série Ginasial; aconteceu que eu fui reprovado (em matemática), não conseguindo passar para a 4ª Série e, consequentemente, perdi a bolsa e tive que procurar um colégio público, do Estado. E aí começa uma nova jornada.

FIM DO CAPÍTULO 2

domingo, 8 de setembro de 2013

BREVES MEMÓRIAS DE UM HOMEM COMUM

Cid José Passos Bastos
 CAPÍTULO I

Nasci em um dia da data de 31 de outubro de 1957, na maternidade Climério de Oliveira, em Salvador, não me recordo qual o horário, mas não importa muito. O certo é que mergulhei na luz do planeta Terra, em uma cidade do Litoral do Brasil, no Estado da Bahia, um ano antes de a Seleção Brasileira conquistar a Copa do Mundo na Suécia. Fui o último a nascer, e nasci no último dia do mês, do antepenúltimo mês do ano; atualmente, o dia 31 de outubro é festejado como “Dia das Bruxas”. Filho caçula de uma família pobre, de oito filhos. Hoje, aos 55 anos, no mês de agosto (já perto dos 56 anos...), resolvi escrever essas suaves e breves memórias, para que eu não esqueça o meu passado, já que muita coisa que escrevi na adolescência (no meu caso, se é que aquela fase pode realmente ser chamada da adolescência) e tenra juventude, eu mesmo dei um fim.
Claro que não me recordo de muita coisa e de muitos detalhes da infância, mas, aquilo que ficou marcado, por uma razão ou outra, eu ainda tenho na memória. Evidente, também, que nem tudo eu poderei escrever aqui, por envolver assuntos, em parte desagradáveis, em parte porque envolve outras pessoas que não seria lícito, no meu julgamento, dar a público.
Um dos fatos que marcaram minha infância foi um “acidente” com o meu carro de brinquedo, um Jeep vermelho, todo de metal, movido a pedal, que eu estava dirigindo e se chocou com um poste na rua, por causa de um senhor (o seu Lalau, acho que era esse o seu nome ou apelido) que estava sentado entre o poste e a parede de sua casa; quando vi o Seu Lalau sentado na cadeira no único lugar que eu poderia passar (a rua era um suave declive), não tive muita dúvida: deixei o carro se chocar contra o poste de iluminação pública, para evitar levar o velho na frente. Bem, o resultado foi que eu caí sentado na transmissão (que era de ferro) do pedal para as rodas e, é claro, danificou a frente do Jeep. Lógico que chorei bastante na hora, porque, realmente, doeu. O Jeep levou algumas semanas para ser consertado. A rua a que me refiro é o Beco do Cirilo, na Estrada da Rainha.
Ainda em relação ao Jeep, quando retornou do reparo, fui imitar o meu pai (que era mecânico) e coloquei o Jeep suspenso por duas cadeiras, à moda de um macaco hidráulico, e fui “reparar” o carro, quando este caiu sobre mim (devo ter esbarrado na cadeira); dessa vez, não chorei (eu acho...), mas senti alguma dor. Se não me engano, já nesse período, mudamos para o bairro do IAPI.
No bairro do IAPI, esse tempo de criança foi muito bom. Brinquei bastante, o quintal de minha casa para mim era um mundo (hoje vendo alguns programas de Backyardigans me recordo quando ouço a música, em um trecho que diz “temos o mundo inteiro no nosso quintal”; realmente é assim mesmo). Naquela época a televisão passava algumas séries que para mim eram o máximo: Vigilante Rodoviário, Ripcord, Johnny Ringo, Wyatt Earp, Jim das Selvas, O Homem do Rifle, Bat Masterson, Ivanhoe, Zorro, Ultraman, Perdidos no Espaço, Viajem ao Fundo do Mar, Aventuras Submarinas, Flipper, entre outras (todas, ou quase todas, dos anos 1960). Eu, meus irmãos e alguns amigos, imitávamos muitos episódios dessas séries, ou fazíamos verdadeiros episódios baseados nelas; nós tínhamos criatividade de dar inveja a qualquer roteirista de cinema ou de telenovela.
Quanto aos carros de brinquedo, construíamos verdadeiras estradas, galpões e outras coisas no quintal de casa. E os bonequinhos, eram verdadeiras personagens de aventuras que criávamos. Mas, não era só o quintal de casa, também a rua que ficava no lado de minha casa (a casa fazia esquina com essa rua, mas tinha a frente para a Rua Conde de Porto Alegre), a Rua Fernando Leal que, àquela época, era apenas um caminho no meio de um matagal, o que nos proporcionava local ideal para as nossas aventuras; algum tempo depois, um trator alargou a rua, prolongando-a até a “baixa da fonte”, o que criou outras oportunidades de brincadeiras e tornou a rua um local ideal para os “babas”.
À mediada que fui crescendo mais um pouco, o futebol, o jogo de botão, o fura pé, o guiador e a gude tomaram o lugar dessas brincadeiras de criança mais tenra; o peão, eu nunca consegui jogar isso. Adorava jogar bola, um bom baba, embora eu nunca tivesse sido um bom jogador, sempre jogava ou “pegava” um baba, especialmente porque eu era o dono da bola..., e sem bola não há jogo. Mas, eu tinha as minhas qualidades no futebol: era um bom goleiro e quando não estava atuando nessa posição, sempre me posicionava bem para fazer o gol, chegando a ser o artilheiro da rua, com mais de 100 gols. Algumas vezes, nesses babas, perdíamos algumas bolas, porque a rádio patrulha levava a bola algumas vezes, quando esta caía no meio da pista. Mas, convivíamos bem com isso, sem necessidade de qualquer “manifestação” contra a “opressão policial”.
Nos demais jogos, também nunca fui excelência; no fura pé nunca fui bom, no jogo de gude apenas razoável, assim como no jogo de botão; agora, empinar pipa e assemelhados, eu nunca gostei. Andar de bicicleta também não, principalmente depois de algumas tentativas e quedas, eu desisti completamente.
Outra diversão para mim era acompanhar (na medida do possível) o meu pai e irmãos quando estavam consertando algum carro, ou mesmo o do meu pai; sempre auxiliava de algum modo, retirando algum parafuso, lavando peças em querosene ou gasolina e dirigindo o carro com o motor desligado, quando este era empurrado de um local para outro; nada disso gerou motivo para que se criasse alguma polêmica sobre “trabalho infantil” (creio, sinceramente, que a vagabundagem infantil é um mau bem pior). Certa vez, porque não consegui frear a tempo, o carro se chocou contra o cercado de arame do quintal de minha casa, o que levou o espanhol da padaria a me chamar sempre de “motorista”, com sotaque bem espanhol. Também isso não era considerado “bullyng”.
Há uma passagem, por essa época, que achei interessante. Desde menino pequeno tinha vontade de ter um carneiro (não sei bem por que, mas tinha vontade). E não é que eu acabei tendo um carneiro? Ele chegou a casa à noite, procedente de uma fazenda em São Gonçalo dos Campos. Esse carneiro era bastante peculiar: era de cor cinza, com o rosto e pernas pretas. O animal berrou a noite toda, certamente estranhando o local. Pela sua cor, demos a ele o nome de Chumbinho. Esse carneiro acabou sendo a sensação da rua; gostava muito de pão e, certa vez, foi correndo atrás de um menino que levava o saco de pão para casa, o qual também correu, quase chorando, com medo do carneiro. Fui atrás e segurei o carneiro. Em outra ocasião, ao avistar na “cristaleira” da vizinha, Dona Guiomar, o pão, o carneiro correu para dentro da casa e por pouco não quebrou o vidro do móvel para pegar o pão.  Chumbinho, certa vez, foi solicitado para participar de uma gincana (era muito comum, à época), vestido com roupas de menino; foi uma sensação na rua, todos riram.
Bem, esses foram alguns momentos lúdicos.
Outros fatos interessantes ocorreram nos anos 1960 em Salvador, como o desfile da Primavera, realizado na Fonte Nova (minha irmã mais velha, Lícia, sempre participava) e a Gincana Baiana da Primavera, transmitida pela televisão. Lembro-me que existia uma corrida de automóveis, tipo stock-car, que também era transmitida pela televisão, realizada na Avenida Centenário, em Salvador. Recordo até do nome de um piloto: Lulu Geladeira.
No início dos anos 1970, exatamente em 1970, tive o prazer de ver a Seleção Brasileira ganhar a Copa do Mundo, no México. Cheguei a ter alguns bonequinhos dos jogadores (quase a seleção completa), que vinham de brinde no frasco de Toddy.

Tenho outras recordações desse período dos anos 1960 e 1970. Recordo dos refrigerantes, como Guaraná Fratelli Vita, Gasosa de Pera, Guaraná Champagne Antarctica, Grapette, entre outros. Nessa época quero registrar a lembranças das festas juninas: no IAPI era bastante animado, com quase todas as casas com suas fogueiras na porta. Fazer a fogueira era o que eu mais gostava no São João.
Fim do Capítulo I

domingo, 18 de agosto de 2013

BREVE ENSAIO SOBRE A EVOLUÇÃO DO PROCESSO REPRODUTIVO.
PARTE I: DA DUPLICAÇÃO MOLECULAR À UNIÃO GAMÉTICA

Cid José Passos Bastos
Prof. Departamento de Botânica


A História da Vida começou com a capacidade de automultiplicação. Os primeiros sistemas moleculares ou pré-bióticos formados começaram a sua jornada evolutiva a caminho do que hoje conhecemos como seres vivos através de repetidas duplicações, clonagens perfeitas e imperfeitas do padrão básico inicial. Até que esses sistemas pré-bióticos chegassem a formar os sistemas bióticos (seres vivos), passaram-se alguns milênios de intensas tentativas de adaptação às novas condições, intrínsecas e extrínsecas, objetivando alcançar o ajustamento necessário que hoje é observado nos sistemas vivos ou bióticos. Dessa busca incessante a esse ajustamento originaram-se os processos reprodutivos que conhecemos.
Os sistemas bióticos, como sistemas evolutivos, procuram sempre a sua manutenção, ou seja, a sua perpetuação mesmo que para isso sacrifiquem grande número de individualidades (partições derivadas de um só) no processo, uma vez que, inexoravelmente, os sistemas vivos mantêm-se no contínuo “nascer-viver-morrer”, ou seja, “transformar-se, manter-se, transformar-se”. Uma vez que a molécula básica da vida, tal como hoje a conhecemos no planeta Terra, é o DNA, com a sua consorte, o RNA, os sistemas bióticos necessitam mantê-las e, para isso, trabalham efusivamente, multiplicando-se antes que os processos entrópicos os reclamem, isto é, que haja a transformação da matéria através do processo da morte. Mantidas, ou seja, perpetuadas essas moléculas através dos vários processos de multiplicação, o objetivo básico está cumprido.
Uma questão que nos salta à mente é como esses processos ocorreram ao longo do tempo evolutivo, isto é, como evoluíram e evoluem. Iremos desenvolver o nosso raciocínio pautado no seguinte corpo de hipótese:

Fase I – Sistemas pré-bióticos   ® ® ® ® ® sistemas bióticos
                                                                     Duplicações moleculares

Fase II – Sistemas bióticos ® manutenção (processos assimilativos)
                                                       ® perpetuação       ® divisão - processos de multiplicação vegetativa
                                                                        ¯
                                                               incorporação
                                                                         ¯
                                                               processos primitivos de incorporação de material genético
                                                                         ¯
                               processos primitivos de união por incorporação
(tentativas de assimilação ou sequestro de material genético)
          ¯
interações por incorporação mais ordenada
          ¯
união (fusão) e permuta de material genético
          ¯
processos iniciais de plasmogamia e cariogamia
          ¯
surgimento da diploidia
          ¯
aperfeiçoamento do processo sexuado
          ¯
surgimento da meiose (ciclo reprodutivo)
          ¯
predominância da haploidia
(surgimento do ciclo haplôntico)
(surgimento dos gametas que repetem o padrão inicial)
          ¯
retardo da meiose
          ¯
surgimento de duas fases, haploide e diploide
(ciclo haplodiplôntico)
          ¯
retardo da meiose e supressão da fase haploide
assimiladora; predominância da fase diploide
(ciclo diplôntico)


A fase I já foi abordada. A fase II, onde a evolução mais trabalhou, teve consequências imediatas na evolução dos eucariontes. Se observarmos os procariontes, esses seres que mais se aproximam do padrão básico inicial (do ancestral, primeiro sistema biótico formado), a sexualidade não está desenvolvida, ocorrendo apenas tentativas com os processos hoje conhecidos de transformação, transdução e conjugação. Nota-se que os processos mais especializados nesses seres são os de multiplicação vegetativa, principalmente aqueles observados nas cianobactérias. O processo mais simples é o de divisão binária ou cissiparidade, em que um ser unicelular divide-se para formar um clone, idêntico, portanto, ao indivíduo parental. Processos um pouco mais especializados observados nos procariontes são os de formação de esporos ou “células de resistência” com poder multiplicativo e de dispersão considerável, desde que pode haver produção de mais de uma dessas unidades de dispersão com atributos que lhes permitem sobreviver a condições adversas do meio, uma situação bem provável de ocorrer em ambientes em evolução. As cianobactérias estão entre os procariontes mais especializados morfo-fisiologicamente. Morfologicamente, surge o filamento, prenúncio do tecido, e fisiologicamente o surgimento da fotossíntese oxigênica, que requer a síntese de pigmentos e compostos enzimáticos mais elaborados. O aparecimento do processo fotossintético oxigênico foi um dos principais impulsos da evolução da vida.
Com o surgimento do filamento, processos mais elaborados de multiplicação vegetativa também apareceram, com a formação de células especiais (acinetos, endósporos, exósporos) e de fragmentação de determinadas partes do filamento (hormogônios). Esses processos de multiplicação vegetativa permitem aos sistemas bióticos uma rápida ocupação do habitat com custo energético e evolutivo, mais baixos.
Entre os eucariontes, principalmente aqueles unicelulares, os processos de multiplicação vegetativa podem ainda ser observados, em que, um deles, a esporulação, adquiriu especial desenvolvimento. No processo de esporulação assexuado dos sistemas unicelulares, o próprio soma (célula) converte-se em esporângio com produção de vários indivíduos (unidades repetitivas de um mesmo padrão básico), portanto, esporos que iniciam a sua jornada evolutiva desenvolvendo os processos assimilativos que lhes são peculiares. Nos sistemas bióticos pluricelulares, o processo da esporulação é bem mais especializado. Nesses organismos, parte do corpo (conjunto de células) se diferencia para formar estruturas especiais, os esporângios, onde células especiais de resistência (esporos) são produzidas, com ou sem flagelos, a depender do curso evolutivo do organismo.
Neste momento evolutivo, a sexualidade apenas ensaiava nos sistemas bióticos unicelulares. Ainda se observam esses ensaios nos unicelulares, em que indivíduos começam os processos de união por incorporação (fusão) mais ordenada, com permuta de material genético (com as fases de plasmogamia e cariogamia), originando a fase diploide que pode ser curta ou longa. Nesse ponto, inovações surgiram. Mas, antes que possamos analisá-las, convém dissertarmos sobre como surgiu o processo sexuado. Para isso temos que nos reportar aos primeiros momentos evolutivos dos eucariontes.
Provavelmente o processo sexuado começou com as tentativas de incorporação do material genético (as moléculas básicas da evolução), como já observado nos procariontes através dos processos de transformação, transdução e conjugação. Nos eucariontes unicelulares (o estádio ou nível pluricelular foi alcançado em etapa evolutiva posterior, provavelmente) essas tentativas tiveram lugar como processos de união por incorporação (endossimbiose), como supôs Margulis (2001), em que o núcleo do invasor (ou o material genético) teria penetrado a célula hospedeira e, posteriormente, ocorrendo a fusão ou incorporação do genoma. Isso permitiu maiores possibilidades evolutivas como resposta a um ambiente instável, bem como à “tendência inata” do aperfeiçoamento das formas (evolução das formas ou dos padrões morfológicos). Evidentemente, esses processos iniciais eram agressivos, numa tentativa da célula invasora de apropriar-se do genoma do hospedeiro, por incorporação. Em decorrência dessas tentativas e com o sucesso adaptativo alcançado com esse processo a sexualidade começou a se desenvolver, a princípio por processos de união por incorporação mais ordenada, tendendo para uma permuta e não mais sequestro do potencial genético da célula hospedeira. Assim, as fases hoje reconhecidas de união gamética, plasmogamia e cariogamia, teriam evoluído. Como resultado desse processo, surgiu a fase diploide (aparecimento do zigoto).
Como necessidade de multiplicação para melhor ocupar e explorar o ambiente, o zigoto teria sofrido divisões redutoras (meiose), uma maneira de restaurar o equilíbrio genômico dos seres que se fusionaram. Desse modo, o ciclo haplôntico teria surgido. Ainda hoje se observa esse processo nas algas e carófitas, principalmente entre as clorofíceas. Em alguns indivíduos unicelulares assimiladores (trofontes), eles mesmo fusionam-se, funcionando como gametas (tais células, os gametas, ainda não aparecem nesse processo), formando o zigoto que sofre meiose originando, meiósporos, os quais darão origem aos indivíduos assimiladores haploides; em outras, divisões mitóticas ocorrem formando células, morfologicamente idênticas ao indivíduo gerador, porém, menores, as quais funcionam como gametas, fusionando-se para formar o zigoto, que logo sofre meiose. Tais indivíduos exploram melhor o ambiente dividindo-se (processos de multiplicação vegetativa) originando vários clones, os quais, mais uma vez, podem funcionar como gametas (células de fusão). No caso dos pluricelulares, houve a formação de estruturas (gametângios) em regiões especiais do soma, em que células irão se diferenciar formando células de fusão com paredes delgadas apropriadas à recombinação por fusão e incorporação (os gametas).
Em uma escala evolutiva posterior, em novas tentativas de aperfeiçoamento das formas que permitiriam maior ocupação e exploração do habitat, o zigoto formado não sofreu meiose, mas sim divisões mitóticas, dando origem a uma fase assimiladora diploide. Assim, os sistemas bióticos, principalmente aqueles pluricelulares, teriam duas fases assimiladoras que poderiam sofrer processos rápidos de multiplicação vegetativa e, dessa forma, melhor explorar os recursos do meio ambiente. O retardo da meiose iria ter implicações evolutivas surpreendentes.
Mas, a fase assimiladora diploide seguindo a tendência evolutiva, teria que restaurar o equilíbrio genômico para que fosse possível obter novas incorporações (recombinações) das moléculas básicas iniciais (ácidos nucléicos), como um processo atávico do surgimento da sexualidade. Assim, em determinada fase do ciclo de vida tais trofontes diploides formaram, em regiões apropriadas diferenciadas para esse fim, o meiosporângio que produziam meiósporos, ou seja, células haploides de dispersão resistentes, agora sim, através da meiose. Cada um desses meiósporos teria a potencialidade de formar novos indivíduos assimiladores haploides, com potencial para produzir os gametas.
Mas, no curso evolutivo de aperfeiçoamento das formas com tendências para melhor utilização dos recursos do ambiente, ocorreu um “salto” ou passo evolutivo dos mais importantes. Em determinada fase da evolução, com “finalidade” de aperfeiçoar energeticamente o custo reprodutivo, a fase assimiladora haploide foi suprimida, com o sistema biótico diploide agora formando gametas. Isso diminuiria o custo evolutivo em que o sistema biótico, ele mesmo assimilador, produziria células (gametas) que logo liberadas se fusionariam formando o zigoto, encurtando o ciclo evolutivo, surgindo, dessa forma, o ciclo diplôntico.
Se observarmos os níveis de organização morfológica, veremos que os sistemas bióticos mais complexos reduziram, e alguns até suprimiram, a fase haploide assimiladora, que ficou restrita apenas aos gametas. Assim, parece que a tendência evolutiva segue na direção da diploidia.
Da mesma forma como analisamos o processo sexuado, podemos nos reportar à própria sexualidade dos sistemas bióticos. Assim, nos unicelulares a sexualidade não está definida, com a monoecia amplamente distribuída. Mas, já nos sistemas bióticos mais complexos observa-se uma tendência à dioecia, em que indivíduos distintos produzem tipos específicos de gametas (masculinos ou femininos). Aí também temos que nos reportar aos processos de união gamética.
Muito provavelmente, os primeiros sistemas bióticos diploides ou haploides produziam gametas idênticos (isogamia). Em etapa posterior ou mesmo concomitante, apareceu a tendência para um dimorfismo sexual nos gametas, surgindo a anisogamia, a qual culminou num processo mais especializado em que os gametas seriam substancialmente diferentes na forma, tamanho e função (oogamia).
Tais modificações na forma e na função dos gametas acompanharam as modificações da forma dos indivíduos assimiladores. Podemos observar que os processos de isogamia ocorrem no meio ambiente, mas já os oogâmicos começam a se diferenciar, ocorrendo a união gamética no interior da estrutura que produziu o gameta feminino (maior e imóvel), que no caso das algas e fungos é o oogônio, e no caso das plantas terrestres (briófitas e traqueófitas) é o arquegônio.
À medida que o nível de complexidade morfológica e fisiológica dos sistemas bióticos assimiladores foi aumentando, com ocupação e exploração do ambiente terrestre, modificações evolutivas importantes surgiram no processo reprodutivo. Com o aparecimento do arquegônio a união gamética tornou-se mais especializada, com apenas um único gameta feminino sendo fecundado, protegido da perda de água por uma camada de células vegetativas. Note que, no oogônio todas as células tornam-se gametas.
Nesse novo ambiente a ser explorado, em que um dos fatores limitantes do processo reprodutivo é a água, o ciclo, inicialmente haplodiplôntico, tornou-se quase diplôntico, repetindo os primeiros ensaios evolutivos ocorridos nas algas, com redução extrema da fase assimiladora haploide (gametófito), a qual ficou reduzida, nas angiospermas, ao tubo polínico (produtor de núcleos gaméticos masculinos) e ao saco embrionário (produtor de núcleos gaméticos femininos). Isso implica em que o processo evolutivo da reprodução teve caminhos idênticos e diferentes, nos dois ambientes, o aquático e terrestre, uma vez que ambos requerem diferentes maneiras adaptativas para serem explorados.
No ambiente aquático, pelo menos nos organismos clorofilados, em alguns grupos a fase assimiladora haploide foi totalmente suprimida, restando apenas os gametas, enquanto que em outros, não. Também é importante observar que nas Phaeophyceae, entre as Fucales, começa a haver uma tendência para a supressão da fase assimiladora haploide, predominando apenas a fase diploide.
Mesmo no ciclo haplodiplôntico, houve diversos ensaios que culminaram nas diferentes expressões fenotípicas das fases haploide e diploide. Um caso extremo de modificação nesse ciclo ocorre nas Rhodophyta, que não apresentam gametas móveis. Nesse grupo houve uma amplificação do zigoto através da formação de carpósporos, pequenos esporos (mitósporos) diploides que acabam funcionando como zigotos e que, após liberados, formam os indivíduos assimiladores diploides produtores de meiósporos (tetrasporófitos).
Nas plantas terrestres, entre as briófitas ocorre a predominância da fase assimiladora haplóide (gametófito) sobre a diploide (esporófito), enquanto que nas traqueófitas (licófitas, monilófitas, gimnospermas, angiospermas) ocorre a predominância da fase assimiladora diploide (esporófito), que culminou com o aparecimento da semente (nas gimnospermas e angiospermas), que seria outro capítulo evolutivo importante, o qual será tratado na segunda parte desse ensaio (Parte II – Do esporo à semente).
Uma boa abordagem sobre a evolução do processo reprodutivo nas plantas pode ser vista em Willemse (2009).
Devemos ter em mente que a evolução se processa através de inovações e repetições de padrões, que podemos observar na grande diversidade de organismos que existem hoje e que, muitas vezes, queremos reduzir a simples conceitos ou noções padronizadas, nem sempre interligadas, o que é um grande equívoco. Devemos aprender que a evolução é um processo.

Literatura citada

Margulis, l. 2001. O Planeta Simbiótico: uma nova perspectiva da evolução. Rio de Janeiro: Ciência Atual.
Willemse, M.T.M. 2009. Evolution of plant reproduction: From fusion and dispersal to interaction and communication. Chinese Science Bulletin 54: 2390-2403.