sábado, 19 de fevereiro de 2011

MEMÓRIAS E REFLEXÕES: O QUE É SER UM CIENTISTA?

Desde muito cedo, quando ainda menino, quis ser um cientista, um ser que eu não via como um simples profissional, mas alguém que fazia algo além de ter uma profissão e ganhar dinheiro com ela. Assim, ser um cientista se tornou um ideal a ser conseguido, o que, à época, podia ser traduzido como uma vocação, embora, no íntimo, soubesse que era algo muito mais além desse conceito.
Quando fui aprovado no vestibular da Universidade Federal da Bahia, para o Curso de Ciências Biológicas, senti que, naquele momento, tudo se iniciava. Assim, iniciei o Curso de Graduação em Ciências Biológicas encarando-o não como um “curso”, mas como um meio, uma formação para ser um cientista, que era o meu ideal de vida. Para mim, ser cientista não era para conseguir um emprego, galgar uma posição social, mas uma meta, um ideal; emprego e o que poderia advir disso seria uma conseqüência. Dessa forma, fiz o curso com essa idéia e me preparei além daquilo que os componentes curriculares (as Disciplinas) aparentemente propunham, os quais eu encarava como etapas a serem desenvolvidas na minha formação. Na verdade, os componentes curriculares esperam isso dos alunos, mas, infelizmente, a maioria dos alunos espera que os componentes curriculares façam o que a eles cabe. E, assim, prossegui na busca da realização de meu ideal.
Como conseqüência da minha visão de como era ser “um aluno de Ciências Biológicas”, estava sempre lendo, preparando-me, construindo o meu ideal. Assim, consegui o meu primeiro estágio em um laboratório de pesquisa. Iniciei essa essencial etapa na formação de um cientista como estagiário da Dra. Marlene Campos Peso de Aguiar, na área de zoologia, mais especificamente, em ecologia marinha, pois trabalhava no Projeto “Estudos Ecológicos do Recôncavo”. Nesse estágio, compreendi e aprendi o que era fazer pesquisa científica, obter dados e tratá-los. Após essa experiência, aproveitei uma oportunidade que apareceu de iniciar meus estudos na área de Botânica: fiz a seleção para monitoria na Disciplina Botânica V (à época, Sistemática de Talófitas e Briófitas) e obtive aprovação, cujo docente era a Profa. Dayse Vasquez Martins. Esse fato marcou minha vida e delineou o meu destino como cientista, pois foi com essa oportunidade que iniciei meus estudos em Botânica, mais especificamente, com Briófitas.
Quase que como um prêmio pelo meu esforço, mas, na verdade a conseqüência da busca pela realização de meu ideal, a Profa. Dayse primava pela pesquisa científica e, assim, entrei nessa escola, a de formação de cientista. Foi como se ela me dissesse: “meu filho, aqui estão os instrumentos, as ferramentas de que você necessita; use-os com sabedoria”. Acho que consegui fazer isso.
Hoje, vendo concretizado esse ideal, tento passar essa visão para os meus alunos, mais especificamente, os meus orientandos. Ofereço os instrumentos, as ferramentas, para que cada um construa o seu ideal, ou, ao menos, a sua profissão. Isso depende da visão de cada um sobre o que é ser um cientista. Talvez os alunos achem que isso não é o que esperavam de um orientador, mas eu acredito que seja a melhor orientação que posso dar, pois, saber utilizar os instrumentos e as ferramentas, é absolutamente necessário na formação de um cientista. Cada um tem que escrever a sua história, construir o seu futuro, e deve ter inteira responsabilidade sobre isso; nós, na qualidade de orientadores, oferecemos os meios para que cada um construa o seu fim, pois o fim é sempre o começo de uma nova etapa.
Portanto, essa a minha visão: ser um cientista não é ser apenas um profissional, mas, acima de tudo, o resultado da realização de um ideal, pois fazer ciência não é desenvolver uma profissão, mas sim construir conhecimento.

Cid  Bastos

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

NÍVEIS DE ORGANIZAÇÃO MORFOLÓGICA



UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA – INSTITUTO DE BIOLOGIA
SÉRIE TEXTOS DIDÁTICOS – ANO 2014


NÍVEIS DE ORGANIZAÇÃO MORFOLÓGICA
Cid José Passos Bastos
Professor Associado
Universidade Federal da Bahia
Instituto de Biologia

I - BASE CONCEPTUAL
Universo da Botânica está representado por uma variedade de organismos que apresentam importantes diferenças na sua organização morfológica, estrutural e funcional. De um modo geral, a organização morfológica pode ser abordada sob dois diferentes aspectos: (a) níveis de organização, que reflete a relativa hierarquia na organização morfológica; (b) planos de construção do corpo vegetativo, que enfoca aspectos concernentes à construção ou formação dos diferentes níveis de organização morfológica.
Níveis de Organização são etapas na formação de sistemas com maior complexidade estrutural e funcional, ou seja, etapas que vão do menor conteúdo de informação para um maior conteúdo de informação, com o fim de aperfeiçoar o processamento de informações tendendo a mais completa adaptabilidade e desenvolvimento. Os níveis de organização retratam ensaios evolutivos dos sistemas bióticos que tendem à aquisição de maior conteúdo informativo e maior capacidade de processar informações, ou seja, de se adaptarem e se desenvolverem.

II - NÍVEIS DE ORGANIZAÇÃO MORFOLÓGICA
Os níveis de organização morfológica focalizam os aspectos da organização estrutural. São eles: plasmodial, unicelular, trical ou filamentoso, pletenquimático e parenquimático.

1 - Organização Unicelular
A – Cocal
O nível cocal é caracterizado pelo estado imóvel, apresentando parede celular, podendo apresentar movimento por deslizamento. As formas cocais estão representadas nas bactérias, cianobactérias e algas.

B – Monadal
O nível monadal caracteriza-se pela presença de flagelos, representando o estado móvel. As formas monadais, com ou sem parede celular rígida, apresentam movimento ativo, com 1-2 ou vários flagelos, esse último caso em bactérias. Ocorre entre as algas (nas fases vegetativas, nos gametas, zoósporos e planozigotos), Oomycetes e Chytridiomycota (zoósporos). Nas Briófitas, licófitas e samambaias apenas nos anterozóides.

C – Rizopodial
O nível rizopodial caracteriza-se pela presença de rizopódios, que são expansões protoplasmáticas delgadas e ramificadas, utilizadas para a locomoção. Ocorre em certas algas (Chrysophyceae, por exemplo).

2 - Organização Colonial
A colônia, que pode aparecer tanto nos níveis móveis quanto imóveis, é formada por aglomerados frouxos ou coesos de células, que podem adquirir aspecto característico na dependência do padrão de divisão celular. Não existe interdependência estrita entre as células, ou seja, não há diferenciação de funções, embora em algumas colônias possa haver uma polarização de funções. Pode apresentar forma característica e número fixo de células. Ocorre em bactérias, cianobactérias e algas.

3 - Organização Trical ou Filamentosa
               Os filamentos são formados como consequência do padrão de divisão das células, com a mesma orientação. Podem ser unisseriados (simples ou ramificados) ou plurisseriados (simples ou ramificados).

3.1. Unisseriado
O filamento unisseriado é formado por apenas uma fileira de células. Pode ser apolar, quando não existe diferenciação polar e basal, ou seja, não há célula apical e basal diferenciadas. É polar quando existe uma célula basal diferente, adaptada morfologicamente para fixação do organismo ao substrato. A célula terminal, por sua vez, pode, algumas vezes, assumir características diferentes das outras, sofrendo divisões, o que caracteriza uma célula apical.
O filamento unisseriado pode ser simples ou ramificado. O tipo ramificado origina-se quando ocorre uma mudança no plano de divisão das células, resultando na formação de ramos, os quais tanto podem ser originados na célula apical (crescimento por célula apical) ou em células intercalares (crescimento intercalar).
Existe ainda um sistema de filamentos ramificados um pouco mais especializado, o tipo heterotrico, que se caracteriza por apresentar uma porção filamentosa prostrada da qual partem filamentos eretos. O sistema heterotrico é muito comum entre as Chlorophyta.
Os filamentos unisseriados também podem ser uninucleados (a maioria) ou multinucleados, como em Cladophora, por exemplo.

3.2. Plurisseriado
               O filamento plurisseriado é constituído por mais de uma fileira de células, e representa um nível de organização mais complexo, sendo o primeiro passo para a formação de uma estrutura parenquimatosa (hística). O filamento plurisseriado também pode ser simples ou ramificado. Ocorre, principalmente, entre as Phaeophyceae e Rhodophyta, mas com ocorrência também em cianobactéria.

4 - Organização Sifonal ou Cenoblástica
A organização sifonal caracteriza-se por ser plurinucleada, sem septos individualizando células (cenócitos ou cenoblastos). Ocorre, principalmente, nas Chlorophyta e nos fungos. Septos podem ser desenvolvidos delimitando estruturas reprodutoras.
5 - Organização Pletenquimática
Pletênquima é um tipo de organização formada por um entrelaçamento ou por ligação pós-gênita de filamentos (Werbeling & Schwants 1986), originando um corpo denso e maciço; cenócitos também podem formar um corpo maciço quando se entrelaçam, à maneira de um pletênquima. O pletênquima, assim, tanto pode ser de estrutura filamentosa como cenocítica. De acordo com a organização, podem ser distinguidos dois tipos de pletênquima: (a) prosopletênquima, quando os filamentos ou os cenócitos estão frouxamente entrelaçados, sendo a estrutura filamentosa ou cenocítica facilmente visível; (b) pseudoparênquima, quando os filamentos estão fortemente ligados, sendo difícil reconhecer a estrutura filamentosa (cenócitos não formam pseudoparênquima).

6 - Organização Parenquimatosa ou Hística
A organização parenquimatosa caracteriza-se pela presença de tecidos verdadeiros, que são formados por divisões celulares em três ou mais planos, resultando em uma estrutura coesa e maciça.
A organização parenquimatosa pode ser simples, como encontradas em certas algas (Chlorophyta e Phaeophyceae), de complexidade mediana, entre as Briófitas, ou mais complexa e especializada, como encontrada nas Traqueófitas, em que podem ser distinguidos três sistemas básicos de tecidos: (a) sistema dérmico; (b) sistema fundamental; (c) sistema vascular.

III - PLANOS BÁSICOS DE CONSTRUÇÃO DO SOMA OU CORPO VEGETATIVO
Embora a grande diversidade filogenética e de níveis de organização observada entre os organismos, é possível identificar quatro planos básicos de construção do corpo vegetativo, de acordo com Niklas (2000): (1) unicelular; (2) colonial; (3) sifonáceo; (4) multicelular. Esses quatro planos básicos estão na dependência da ocorrência de processos relativamente simples: a separação dos produtos da divisão celular ou sua agregação por meio de matriz extracelular, lóricas ou pedúnculos, determina a construção unicelular ou a construção colonial; a ocorrência ou não da citocinese pode determinar a condição uninucleada ou multinucleada; crescimento indeterminado de células multinucleadas determina a construção sifonácea; a continuidade simplástica entre as células durante e após a citocinese por meio de pontes citoplasmáticas ou plasmodesmas determina a construção multicelular (Niklas 2000).

1 - Unicelular
               Considerado o plano de construção somático mais antigo, se caracteriza pela separação dos produtos da divisão celular após a citocinese. A condição uninucleada ocorre quando a cariocinese é acompanhada pela citocinese, e a condição multinucleada ocorre quando a cariocinese não é acompanhada pela citocinese. O crescimento é determinado (Niklas 2000).



2 - Colonial
Agregados de células uninucleadas ou multinucleadas, mas sem continuidade simplástica entre as células. O crescimento é determinado (Niklas 2000).

3 - Sifonáceo
Consiste de uma única célula multinucleada (cenócito ou cenoblasto). O crescimento é indeterminado (Niklas 2000).

4 - Multicelular
Consiste de células uninucleadas ou multinucleadas que mantêm continuidade simplástica após a citocinese. O crescimento é indeterminado, e pode ser difuso, tricotálico, intercalar ou apical. Pode envolver um, dois ou três planos de divisão de células, o que determina os diferentes tipos de construção (Niklas 2000):
a - divisão em um único plano → origina filamentos não ramificados;
b - divisão em dois planos → origina filamentos ramificados, construção monostromática e construção pletenquimática.
c - divisão em três planos → origina a construção parenquimatosa.

 Referências

Niklas, K.J. 2000. The Evolution of Plant Body Plans - A biomechanical perspective. Annals of Botany 85: 411-458.
Weberling, F. & Schwants, H.O 1986. Taxionomia Vegetal. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária.