sábado, 9 de abril de 2011

CONVERSA BRIO-TRANSCENDENTAL


Imaginemos, sem muito esforço, que os Espíritos de três Padres já falecidos, se reuniram em um determinado espaço dimensional não visível aos nossos sentidos físicos. A conversa, entre os três, abordava assuntos relacionados às briófitas, tema de estudo de um dos três quando ainda no plano físico. Vejamos como seria.
Pergunta o Padre Sehnem:
− Olá, como tem passado, Padre Lusier!
Responde Luisier:
− Muito bem, Sehnem, e você?
Sehnem:
− Ah, meu amigo, tenho tido algumas surpresas, não que sejam desagradáveis, mas surpresas!
Luisier
− É mesmo, amigo? Que tem acontecido?
Sehnem:
− Bem, tenho percebido algumas coisas lá do plano físico da Terra, em relação às minhas espécies que descrevi.
Luisier:
− É mesmo, o que tem surgido?
Sehnem:
− Bem, noto que alguns novos pesquisadores andam alterando as minhas espécies novas, desmitificando-as, sinonimizando-as...Ah, Luisier, como percebo, agora, o que fiz, ou melhor, o que não fiz!
Luisier:
− Ora essa, Sehnem, nem parece você! As espécies que nós descrevemos à época, estavam de acordo como os nossos conceitos daquela época... Hoje estão aí para serem estudadas e revisadas mesmo, ora essa! Já basta a religião que professávamos, a qual admitia o absurdo da imutabilidade! Mas, nossas espécies, não, nós não podemos imaginar isso! Esse pessoal novo deve entender que demos o passo inicial, para que eles continuem! Ao menos eles encontraram uma base para estudo.
Sehnem:
− É verdade, Luisier, que bobagem a minha, é ciúme besta, coisa de padre velho, eh, eh, eh, eh. E, sabe de uma coisa, na verdade estou gostando muito dessas discussões e, porque não, do trabalho que estou lhes dando... eh, eh, eh. Principalmente para aquela moça e aquele rapaz lá na Bahia, que estão sendo orientados por aquele moço que vivia, há temos atrás, fazendo piadas com o Torrend. Lembra? Imagine que virou orientador... aquele moço.
De repente, chega outro Padre botânico, o Padre Camilo Torrend:
− Ora, ora, alguém falou o meu nome?
Os dois Padres cumprimentaram de modo esfuziante o recém-chegado:
− Olá Torrend, como tem passado, comentou Sehnem.
− Muito bem, e vocês?
− Estamos bem, respondeu Sehnem.
− Mas, sobre o que palestravam?
Disse Sehnem:
− Ah, Torrend, sobre as espécies que descrevemos como novas, à nossa época, e que agora estão sendo revisadas e alteradas, muitas sinonimizadas.
Respondeu Torrend:
− É mesmo? Kkkkkkkkkkkkkkkk, é muito engraçado, isso!
− Mas, por quê? Perguntou ambos os Padres, Sehnem e Luisier.
− Ora, é fácil... Para mim é realmente engraçado, porque não tenho muito esse problema... kkkkkkkk!
Perguntam Sehnem e Luisier:
− Ora, mas como?
− É que estudei Mixomicetos, que poucos se arvoram a estudar atualmente. Mas, se alegrem, estão contribuindo para o avanço da Ciência!
Despediu-se Torrend, com largo sorriso, deixando os dois Padres pensativos e, ao mesmo tempo, com uma sensação de vitória... Isso porque nos deixaram um grande quebra-cabeça para resolvermos. E, pensem, temos muito mais recursos do que eles, àquela época.

FIM

Essa foi uma singela e despretensiosa homenagem a esses grandes botânicos que nos legaram a oportunidade de estudarmos e conhecermos melhor a nossa brioflora!
Cid Bastos

sábado, 19 de fevereiro de 2011

MEMÓRIAS E REFLEXÕES: O QUE É SER UM CIENTISTA?

Desde muito cedo, quando ainda menino, quis ser um cientista, um ser que eu não via como um simples profissional, mas alguém que fazia algo além de ter uma profissão e ganhar dinheiro com ela. Assim, ser um cientista se tornou um ideal a ser conseguido, o que, à época, podia ser traduzido como uma vocação, embora, no íntimo, soubesse que era algo muito mais além desse conceito.
Quando fui aprovado no vestibular da Universidade Federal da Bahia, para o Curso de Ciências Biológicas, senti que, naquele momento, tudo se iniciava. Assim, iniciei o Curso de Graduação em Ciências Biológicas encarando-o não como um “curso”, mas como um meio, uma formação para ser um cientista, que era o meu ideal de vida. Para mim, ser cientista não era para conseguir um emprego, galgar uma posição social, mas uma meta, um ideal; emprego e o que poderia advir disso seria uma conseqüência. Dessa forma, fiz o curso com essa idéia e me preparei além daquilo que os componentes curriculares (as Disciplinas) aparentemente propunham, os quais eu encarava como etapas a serem desenvolvidas na minha formação. Na verdade, os componentes curriculares esperam isso dos alunos, mas, infelizmente, a maioria dos alunos espera que os componentes curriculares façam o que a eles cabe. E, assim, prossegui na busca da realização de meu ideal.
Como conseqüência da minha visão de como era ser “um aluno de Ciências Biológicas”, estava sempre lendo, preparando-me, construindo o meu ideal. Assim, consegui o meu primeiro estágio em um laboratório de pesquisa. Iniciei essa essencial etapa na formação de um cientista como estagiário da Dra. Marlene Campos Peso de Aguiar, na área de zoologia, mais especificamente, em ecologia marinha, pois trabalhava no Projeto “Estudos Ecológicos do Recôncavo”. Nesse estágio, compreendi e aprendi o que era fazer pesquisa científica, obter dados e tratá-los. Após essa experiência, aproveitei uma oportunidade que apareceu de iniciar meus estudos na área de Botânica: fiz a seleção para monitoria na Disciplina Botânica V (à época, Sistemática de Talófitas e Briófitas) e obtive aprovação, cujo docente era a Profa. Dayse Vasquez Martins. Esse fato marcou minha vida e delineou o meu destino como cientista, pois foi com essa oportunidade que iniciei meus estudos em Botânica, mais especificamente, com Briófitas.
Quase que como um prêmio pelo meu esforço, mas, na verdade a conseqüência da busca pela realização de meu ideal, a Profa. Dayse primava pela pesquisa científica e, assim, entrei nessa escola, a de formação de cientista. Foi como se ela me dissesse: “meu filho, aqui estão os instrumentos, as ferramentas de que você necessita; use-os com sabedoria”. Acho que consegui fazer isso.
Hoje, vendo concretizado esse ideal, tento passar essa visão para os meus alunos, mais especificamente, os meus orientandos. Ofereço os instrumentos, as ferramentas, para que cada um construa o seu ideal, ou, ao menos, a sua profissão. Isso depende da visão de cada um sobre o que é ser um cientista. Talvez os alunos achem que isso não é o que esperavam de um orientador, mas eu acredito que seja a melhor orientação que posso dar, pois, saber utilizar os instrumentos e as ferramentas, é absolutamente necessário na formação de um cientista. Cada um tem que escrever a sua história, construir o seu futuro, e deve ter inteira responsabilidade sobre isso; nós, na qualidade de orientadores, oferecemos os meios para que cada um construa o seu fim, pois o fim é sempre o começo de uma nova etapa.
Portanto, essa a minha visão: ser um cientista não é ser apenas um profissional, mas, acima de tudo, o resultado da realização de um ideal, pois fazer ciência não é desenvolver uma profissão, mas sim construir conhecimento.

Cid  Bastos

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

NÍVEIS DE ORGANIZAÇÃO MORFOLÓGICA



UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA – INSTITUTO DE BIOLOGIA
SÉRIE TEXTOS DIDÁTICOS – ANO 2014


NÍVEIS DE ORGANIZAÇÃO MORFOLÓGICA
Cid José Passos Bastos
Professor Associado
Universidade Federal da Bahia
Instituto de Biologia

I - BASE CONCEPTUAL
Universo da Botânica está representado por uma variedade de organismos que apresentam importantes diferenças na sua organização morfológica, estrutural e funcional. De um modo geral, a organização morfológica pode ser abordada sob dois diferentes aspectos: (a) níveis de organização, que reflete a relativa hierarquia na organização morfológica; (b) planos de construção do corpo vegetativo, que enfoca aspectos concernentes à construção ou formação dos diferentes níveis de organização morfológica.
Níveis de Organização são etapas na formação de sistemas com maior complexidade estrutural e funcional, ou seja, etapas que vão do menor conteúdo de informação para um maior conteúdo de informação, com o fim de aperfeiçoar o processamento de informações tendendo a mais completa adaptabilidade e desenvolvimento. Os níveis de organização retratam ensaios evolutivos dos sistemas bióticos que tendem à aquisição de maior conteúdo informativo e maior capacidade de processar informações, ou seja, de se adaptarem e se desenvolverem.

II - NÍVEIS DE ORGANIZAÇÃO MORFOLÓGICA
Os níveis de organização morfológica focalizam os aspectos da organização estrutural. São eles: plasmodial, unicelular, trical ou filamentoso, pletenquimático e parenquimático.

1 - Organização Unicelular
A – Cocal
O nível cocal é caracterizado pelo estado imóvel, apresentando parede celular, podendo apresentar movimento por deslizamento. As formas cocais estão representadas nas bactérias, cianobactérias e algas.

B – Monadal
O nível monadal caracteriza-se pela presença de flagelos, representando o estado móvel. As formas monadais, com ou sem parede celular rígida, apresentam movimento ativo, com 1-2 ou vários flagelos, esse último caso em bactérias. Ocorre entre as algas (nas fases vegetativas, nos gametas, zoósporos e planozigotos), Oomycetes e Chytridiomycota (zoósporos). Nas Briófitas, licófitas e samambaias apenas nos anterozóides.

C – Rizopodial
O nível rizopodial caracteriza-se pela presença de rizopódios, que são expansões protoplasmáticas delgadas e ramificadas, utilizadas para a locomoção. Ocorre em certas algas (Chrysophyceae, por exemplo).

2 - Organização Colonial
A colônia, que pode aparecer tanto nos níveis móveis quanto imóveis, é formada por aglomerados frouxos ou coesos de células, que podem adquirir aspecto característico na dependência do padrão de divisão celular. Não existe interdependência estrita entre as células, ou seja, não há diferenciação de funções, embora em algumas colônias possa haver uma polarização de funções. Pode apresentar forma característica e número fixo de células. Ocorre em bactérias, cianobactérias e algas.

3 - Organização Trical ou Filamentosa
               Os filamentos são formados como consequência do padrão de divisão das células, com a mesma orientação. Podem ser unisseriados (simples ou ramificados) ou plurisseriados (simples ou ramificados).

3.1. Unisseriado
O filamento unisseriado é formado por apenas uma fileira de células. Pode ser apolar, quando não existe diferenciação polar e basal, ou seja, não há célula apical e basal diferenciadas. É polar quando existe uma célula basal diferente, adaptada morfologicamente para fixação do organismo ao substrato. A célula terminal, por sua vez, pode, algumas vezes, assumir características diferentes das outras, sofrendo divisões, o que caracteriza uma célula apical.
O filamento unisseriado pode ser simples ou ramificado. O tipo ramificado origina-se quando ocorre uma mudança no plano de divisão das células, resultando na formação de ramos, os quais tanto podem ser originados na célula apical (crescimento por célula apical) ou em células intercalares (crescimento intercalar).
Existe ainda um sistema de filamentos ramificados um pouco mais especializado, o tipo heterotrico, que se caracteriza por apresentar uma porção filamentosa prostrada da qual partem filamentos eretos. O sistema heterotrico é muito comum entre as Chlorophyta.
Os filamentos unisseriados também podem ser uninucleados (a maioria) ou multinucleados, como em Cladophora, por exemplo.

3.2. Plurisseriado
               O filamento plurisseriado é constituído por mais de uma fileira de células, e representa um nível de organização mais complexo, sendo o primeiro passo para a formação de uma estrutura parenquimatosa (hística). O filamento plurisseriado também pode ser simples ou ramificado. Ocorre, principalmente, entre as Phaeophyceae e Rhodophyta, mas com ocorrência também em cianobactéria.

4 - Organização Sifonal ou Cenoblástica
A organização sifonal caracteriza-se por ser plurinucleada, sem septos individualizando células (cenócitos ou cenoblastos). Ocorre, principalmente, nas Chlorophyta e nos fungos. Septos podem ser desenvolvidos delimitando estruturas reprodutoras.
5 - Organização Pletenquimática
Pletênquima é um tipo de organização formada por um entrelaçamento ou por ligação pós-gênita de filamentos (Werbeling & Schwants 1986), originando um corpo denso e maciço; cenócitos também podem formar um corpo maciço quando se entrelaçam, à maneira de um pletênquima. O pletênquima, assim, tanto pode ser de estrutura filamentosa como cenocítica. De acordo com a organização, podem ser distinguidos dois tipos de pletênquima: (a) prosopletênquima, quando os filamentos ou os cenócitos estão frouxamente entrelaçados, sendo a estrutura filamentosa ou cenocítica facilmente visível; (b) pseudoparênquima, quando os filamentos estão fortemente ligados, sendo difícil reconhecer a estrutura filamentosa (cenócitos não formam pseudoparênquima).

6 - Organização Parenquimatosa ou Hística
A organização parenquimatosa caracteriza-se pela presença de tecidos verdadeiros, que são formados por divisões celulares em três ou mais planos, resultando em uma estrutura coesa e maciça.
A organização parenquimatosa pode ser simples, como encontradas em certas algas (Chlorophyta e Phaeophyceae), de complexidade mediana, entre as Briófitas, ou mais complexa e especializada, como encontrada nas Traqueófitas, em que podem ser distinguidos três sistemas básicos de tecidos: (a) sistema dérmico; (b) sistema fundamental; (c) sistema vascular.

III - PLANOS BÁSICOS DE CONSTRUÇÃO DO SOMA OU CORPO VEGETATIVO
Embora a grande diversidade filogenética e de níveis de organização observada entre os organismos, é possível identificar quatro planos básicos de construção do corpo vegetativo, de acordo com Niklas (2000): (1) unicelular; (2) colonial; (3) sifonáceo; (4) multicelular. Esses quatro planos básicos estão na dependência da ocorrência de processos relativamente simples: a separação dos produtos da divisão celular ou sua agregação por meio de matriz extracelular, lóricas ou pedúnculos, determina a construção unicelular ou a construção colonial; a ocorrência ou não da citocinese pode determinar a condição uninucleada ou multinucleada; crescimento indeterminado de células multinucleadas determina a construção sifonácea; a continuidade simplástica entre as células durante e após a citocinese por meio de pontes citoplasmáticas ou plasmodesmas determina a construção multicelular (Niklas 2000).

1 - Unicelular
               Considerado o plano de construção somático mais antigo, se caracteriza pela separação dos produtos da divisão celular após a citocinese. A condição uninucleada ocorre quando a cariocinese é acompanhada pela citocinese, e a condição multinucleada ocorre quando a cariocinese não é acompanhada pela citocinese. O crescimento é determinado (Niklas 2000).



2 - Colonial
Agregados de células uninucleadas ou multinucleadas, mas sem continuidade simplástica entre as células. O crescimento é determinado (Niklas 2000).

3 - Sifonáceo
Consiste de uma única célula multinucleada (cenócito ou cenoblasto). O crescimento é indeterminado (Niklas 2000).

4 - Multicelular
Consiste de células uninucleadas ou multinucleadas que mantêm continuidade simplástica após a citocinese. O crescimento é indeterminado, e pode ser difuso, tricotálico, intercalar ou apical. Pode envolver um, dois ou três planos de divisão de células, o que determina os diferentes tipos de construção (Niklas 2000):
a - divisão em um único plano → origina filamentos não ramificados;
b - divisão em dois planos → origina filamentos ramificados, construção monostromática e construção pletenquimática.
c - divisão em três planos → origina a construção parenquimatosa.

 Referências

Niklas, K.J. 2000. The Evolution of Plant Body Plans - A biomechanical perspective. Annals of Botany 85: 411-458.
Weberling, F. & Schwants, H.O 1986. Taxionomia Vegetal. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária.


sábado, 29 de janeiro de 2011

VIVER EM SALVADOR, BAHIA... DIFÍCIL


A Cidade de Salvador, Bahia, está em um momento difícil. Não falo só pela violência crescente, o que não ocorre apenas aqui, mas por alguns fatos da vida diária da cidade. Atualmente, convive-se com uma cidade tomada pelos ambulantes, de uma forma desorganizada, carros de som (aqueles que fazem propaganda) em altíssimo volume, desrespeito às leis de trânsito (o que é uma constante), carros equipados com aparelhos de som colocados no porta-malas reproduzindo músicas péssimas e de baixo nível em volume altíssimo, inclusive até altas horas da noite (após as 10h00min), sistema de transporte público deficiente e sem segurança (convive-se com constantes assaltos a ônibus), só para enumerar alguns dos principais problemas. E tudo isso, principalmente no caso dos carros de som e dos carros com som alto, sem que nenhuma providência seja tomada pelas autoridades ambientais, pois se trata de poluição sonora. Além disso, supostos “artistas” e “bandas”, apoiados pela mídia, “cantam” “músicas” com letras claramente ofensivas, com palavrões e pornografias declaradas, como se o respeito e a ética não existissem mais para ninguém. Novamente, tudo isso sob o beneplácito das autoridades.
Até quando as pessoas que ainda prezam a ética, o respeito e a dignidade terão que suportar isso? Até quando as autoridades permitirão isso, sob a máscara da “liberdade de expressão”?
Está muito difícil viver em Salvador.
Cid Bastos

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

EU ACUSO!

Esse interessante e oportuno texto foi divulgado, por e-mail, pela amiga Telma Sarraf. Pelo seu importante conteúdo, resolvi postá-lo aqui. Reflitamos sobre ele.

J’ACUSE !!!
(Eu acuso!)
(Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes)
Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice.
(Émile Zola)
Meu dever é falar, não quero ser cúmplice. (...)

Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio.. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que... estudar!).

A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, professoras brutalmente espancadas por aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro. O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.
Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática. No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando...
E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.” Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno–cliente...
Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”. Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.
Ao assassino, corretamente, deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:
EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;
EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos” e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;
EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;
EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;
EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estarem;
EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;
EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade, amanhã;
EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;
EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;
EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, pois o que se  deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;
EU ACUSO os “cabeças–boas” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito;
EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;
EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição;
EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;
EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;
    Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos-clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia. Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”. A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto:
“Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor.
Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão.
Se me drogo, a culpa é dos meus pais.
Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema.
Eu sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima.
O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida.
Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva.
Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci.
Portanto, você pode ser o próximo.”
    Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.
Igor Pantuzza Wildmann
Advogado – Doutor em Direito. Professor universitário.